Bodas de Sangue

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Marcos Inácio Fernandes (Marcão)

(Reflexões de um extensionista heterodoxo*)

“Cinquenta anos são bodas de sangue /Casei com a inconstância e o prazer /Perdôo a todos, não peço desculpas /Foi isso que eu quis viver /Acolho o futuro de braços abertos /Citando Cartola: – Eu fiz o que pude /Aos cinquenta anos /Insisto na juventude”

(Cristovão Bastos/Aldir Blanc)

O serviço de Extensão Rural/Agroflorestal do Acre comemora nesse mês de agosto, 50 anos. Não são “Bodas de Ouro”. São bodas de sangue. Da ACAR a SEAPROF, são 5 décadas de muita abnegação, sacrifícios, compromissos e, sobretudo, resistência. Resistência pessoal e institucional.

Resistimos ao “milagre econômico” do Delfim (68-73); a 2 choques do petróleo (1973/79); 2 acordos com o FMI (83 e 98); 1 moratória sobre o pagamento da dívida (87); 3 crises cambiais; 3 reformas monetárias; 7 planos econômicos; incontáveis ministros da Fazenda (de Figueiredo a Meireles), cujo principal instrumento de trabalho é a tesoura, e os lastimáveis (des)governos estaduais de Romildo e Orleir Camely.

Resistimos, sobretudo, ao cataclismo NEOLIBERAL de desmonte do Estado e o sucateamento dos serviços públicos, inclusive, da Extensão Rural. Resistimos e sobrevivemos. Ainda temos seqüelas da crise aguda que atravessamos a partir da extinção da EMBRATER, em 1988/1990. É bom lembrar que a EMBRATER foi extinta duas vezes. A primeira vez, por Decreto Presidencial do Sarney e, depois, por Medida Provisória do Collor. E agora estamos vivenciando a tragédia do golpe e as perversidades do Temer e sua quadrilha.

É nesse clima, que celebramos nossos 50 anos, sem quase nenhum apoio institucional, porque a crise não permite e serve de pretexto prá muita coisa. Assim sendo um grupo de abnegados extensionistas da EMATER/AC, assumiram comemorar a data e fizeram uma programação que se estende até o dia 17/08 com um baile.

Na data de ontem (08/08) participei juntamente com Cleisa Cartaxo de um desses eventos. Ela falou sobre “Segurança Alimentar e Nutricional” e eu falaria sobre a “Extensão Ontem e Hoje”. Nesse evento, deu prá perceber o clima de desconforto e até certo constrangimento da Zenilda Barbalho, que faz parte da comissão organizadora, com o número reduzido de participantes no auditório. Tranquilizei-a: “quem faz o que pode faz o que deve” e os nossos colegas da Comissão Organizadora estão fazendo mais do que pode, quase o impossível! Gratidão por não deixarem a chama da nossa memória se apagar.

Pois bem, depois da brilhante exposição da Cleísa eu fiz a minha fala para me congratular com os que ainda resistem e apresentei uma curta memória fotográfica do nosso serviço. Lí um texto do meu amigo, colega da extensão da Paraíba, e confrade da Academia de Extensão Rural, Verneck Abrantes, que sintetiza, magistralmente, o espírito e a mística do nosso serviço. Diz ele:

“fazendo Extensão Rural vivi situações inusitadas pelos caminhos do sertão: Socorri de queda mulher grávida na seca de1983, quando caçava um camaleão em cima de uma ingazeira para amenizar a fome; fiz acordo de vizinhos jurados de morte; cheguei num sítio com 75 inscrições para “fichar trabalhadores da emergência” e me deparei com mais de 200 pessoas. Depois, ainda fiquei no meio de tiroteio quando do pagamento da “emergência”. Dei nome de planta à criança recém-nascida; conheci muitos rios e riachos de inverno a verão; emiti laudo de perdas na mata fechada e espinhosa, onde só podia ir de burro ou cavalo; soltei passarinho engaiolado, cachorro amarrado no sol quente; saí muitas vezes antes do sol e voltei com a lua e as estrelas. Já me perdi pegando atalho errado, mas depois, me achei no caminho certo. Pela estrada de terra batida sofri virada de carro; na caatinga seca, longe de tudo, fiquei com o carro quebrado onde só se ouvia o tinido do chocalho de uma vaca, distante, quase inaudível. Corri com medo de touro brabo, vaca de bezerro novo; socorri mulher com dor de parto; abri e fechei incontáveis cancelas; entrei em casebres e me emocionei com a fome e a miséria. Vivi a tristeza das irregularidades das chuvas de inverno, vendo tudo que se plantou se perdendo. A seca torrando ainda mais a terra ressequida, a tormenta da falta d’água, o gado morrendo de fome, homem e animais silvestres migrando e as famigeradas “frentes de emergências”. O sertão abrasador das cactáceas, dos mandacarus, das macambiras, dos pereiros, faveleiras, angicos, jurema preta, catingueiras…Também, vivi o esplendor das chuvas de inverno, bem relampejadas e trovejadas, fazendo renascer das cinzas às flores e o verde escuro da vegetação nativa. O plantio no solo arado, a alegria das colheitas, o aboio do vaqueiro, vacas paridas, piracema de curimatã, o perfume do mato verde e das flores silvestres em meio à sinfonia dos cantos dos passarinhos. A chuva exalando o cheio da terra molhada para satisfação do trabalhador… Diante disso, a certeza de que foram muitos os caminhos por onde andei, incontáveis propriedades visitadas, a dinâmica da comunicação, o semeio de muitas amizades, sementes plantadas, produções colhidas e, sem dúvida, uma grande experiência vivida com pessoas memoráveis e lugares que jamais serão esquecidos. (…) Em meio a tudo isso, fazíamos nos Escritórios da EMATER nossos famosos Relatórios de Compromissos: Plano Anual de Ação, Relatório Diário do Executor, Cadastro dos Produtores, Folha de Freqüência, Relatório de Crédito Rural Orientado, Informativo Mensal de Preços, Controle de Quilometragem do Veículo, Prestação de Contas, Relatórios de Informações Mensais das Atividades, Pesquisa Semanal de Preços da CONAB, Campanhas de Vacinação, Laudos Emitidos e Encaminhados ao Banco do Nordeste, Guia de Tráfico Animal, Reuniões, Avaliações, solicitações outras incontáveis. …

Dessa forma, entre perdas e ganhos, acredito no dever cumprido e no trabalho da Assistência Técnica e Extensão Rural, que reflete dedicação, paciência, perseverança, o amor à natureza entre outras qualidades intrínsecas desses abnegados Extensionistas, que dos tempos idos, vem trabalhando incansavelmente na busca do desenvolvimento rural brasileiro.

Essas lembranças me chegaram porque outro dia, caminhando pelo centro de Campina Grande, me deparei com um colega dos tempos de faculdade. A velha e boa amizade nos conduziu a uma conversa descontraída, e depois de algumas recordações prazerosas, prosas e lorotas, ele me perguntou:

– O que vocês fazem na EMATER ?”

Essa é a pergunta que não quer calar e que paira no ar a nos desafiar pelos próximos 50 anos. Nossos veteranos extensionistas, que já estão de “meio dia prá tarde,” podem complementar a bela narrativa do Verneck a partir da nossa experiência amazônica, onde os desafios são do tamanho da região.

De minha parte encerro dizendo que esse serviço de ATER é um dos mais generosos que o povo brasileiro criou. Nele estive por mais de 30 anos – os melhores de minha vida! Pude conhecer o serviço como técnico, sindicalista (fui presidente a ASSEA e ajudei a criar a FASER) e dirigente institucional do serviço, único no Brasil com status de Secretaria de Estado. Amarguei duas demissões, uma não consumada graças ao Dr. Marcelino, e conheci “Oropa, França e Bahia” (todos os municípios do Acre, todos os estados do Brasil, com exceção de Roraima e Tocantins, e alguns países como a Bolívia, Argentina e a França. Por onde andei estabeleci boas relações de amizade. O saldo é extremamente positivo e sou grato.

Parabéns companheiros da EXTENSÃO RURAL/AGROFLORESTAL do Acre e especialmente a Comissão Organizadora que nos brinda com essa celebração dos nossos 50 anos. Continuemos “insistindo na juventude”.

* Um extensionista heterodoxo porque nunca fez Pré-Serviço, sempre trabalhou no “Central” e nunca melou as botas de lama, mesmo porque, nunca usou botas