BESOURO ROLA-BOSTA

José de Anchieta Batista

Dizem que num dos intervalos de uma cantoria, lá para as bandas do Piauí, o dono da casa aproximou-se do Cego Aderaldo (um dos maiores cantadores de viola da história do Nordeste) e se meteu a dizer-lhe uma estrofe de pabulação:

Eu sou a tiranaboia,
Besouro do Piauí,
Quando meto o ferrão num,
Vejo a matéria cair.

O Cego Aderaldo respondeu-lhe em cima da bucha:

Tu és lá tiranaboia,
Besouro do Piauí …
És um simples rola-bosta,
Besouro besta daqui.

Todo mundo caiu na gargalhada, e o dono da casa, se tinha ainda mais algum verso para dizer, calou-se, ajudou na risadagem e, com certeza, arrependeu-se da repentina pabulagem poética.


SAUDADE

Patativa do Assaré
– Nasceu em 05/03/1909
– Falecido em 08/07/2002

Saudade dentro do peito
É qual fogo de monturo,
Por fora tudo perfeito,
Por dentro fazendo furo.

Há dor que mata a pessoa
Sem dó e sem piedade,
Porém não há dor que doa
Como a dor de uma saudade.

Saudade é um aperreio
Pra quem na vida gozou,
É um grande saco cheio
Daquilo que já passou.

Saudade é canto magoado
No coração de quem sente,
É como a voz do passado
Ecoando no presente.