Atriz trans que interpreta Jesus: ‘Os seguranças que contrataram para nos defender queriam me bater’

João Ker

No dia 27 de julho, Renata Carvalho passou pelo que classifica como o “episódio de censura mais violento” que já sofreu. Prestes a apresentar a “O Evangelho segundo Jesus, rainha do céu” durante o Festival de Inverno de Garanhuns, no interior de Pernambuco, a atriz e ativista foi boicotada pelo próprio evento minutos após ter subido ao palco. Decidida a continuar a apresentação de forma independente, manteve a atuação mesmo com a chegada de oficiais de justiça e da explosão de uma bomba caseira no palco. A peça terminou do lado de fora, na chuva. O espetáculo, escrito originalmente pela britânica Jo Clifford, levanta questionamentos sobre como Jesus seria tratado nos dias de hoje caso voltasse no corpo de uma travesti, ao mesmo tempo em que reinterpreta algumas passagens da bíblia.

A decisão veio após líderes religiosos de Garanhuns terem repudiado fortemente a apresentação. Primeiro, a Diocese emitiu uma nota oficial logo após a programação ter sido anunciada, alegando que a peça “fere profundamente a gente da cidade” e ameaçando impedir que a catedral fosse utilizada como palco do evento caso a peça não fosse cancelada. Às vésperas da apresentação, o desembargador Roberto da Silva Maia, do Tribunal de Justiça de Pernambuco, cedeu à pressão da igreja e proibiu o espetáculo por meio de uma liminar.

Mesmo horas depois, quando outras duas decisões favoráveis à inclusão da peça na programação foram expedidas pelos desembargadores Cândido Saraiva e Sílvio Neves, tanto a Secretaria de Cultura quanto a Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco mantiveram suas posições de excluir “Rainha do céu” do festival. O argumento usado dessa vez foi que a peça “desvirtuaria um profeta religioso” e “fomentaria o ódio e a intolerância”.

Em nota, o governo e a organização do festival comunicaram um dia após o ocorrido que a decisão de impedir a peça veio pelo cumprimento da primeira ordem: “o mandado de segurança deferido pelo desembargador Roberto da Silva Maia, impetrado pela Ordem dos Pastores Evangélicos de Garanhuns e Região, continua impedindo o governo do estado de realizar o espetáculo”.

A justiça pernambucana seguiu os passos de outras decisões. A peça já havia sido censurada em Jundiaí, no interior paulista, no Rio de Janeiro e em Salvador. Em Garanhuns, no entanto, o desfecho foi mais dramático. Carvalho prosseguiu com o plano de manter as duas performances mesmo após a bomba e a aparição dos oficiais de justiça. A apresentação terminou com confrontos e violência – o tal ódio e a intolerância previstos pelo juiz, mas do lado contrário. Até os seguranças, contratados para proteger a atriz, a ameaçaram fisicamente.

Carvalho está acostumada a ser boicotada. E, mesmo entre a classe artística, ela conta, foi mínimo o apoio que recebeu frente aos episódios recorrentes de censura. “Queria ver se fosse com qualquer outro ator no Brasil se as pessoas não teriam se mobilizado. Se não teriam subido hashtags como ‘somos todos fulano de tal’, ‘estamos juntos’, ‘censura nunca mais’”, questiona. Para ela, episódios como esse – e o silêncio que o sucedeu – é o que permite que o conservadorismo censure outras formas de arte, como o que aconteceu na exposição Queermuseu. Ela contou o episódio ao Intercept:

“Quando soltaram a programação oficial do Festival de Inverno de Garanhuns, já no dia seguinte anunciaram também que nossa participação seria retirada. Foi aí que os artistas de lá, que eram próximos de mim, perguntaram se queríamos continuar com a apresentação. Dissemos que queríamos, sim e, então, fizemos uma vaquinha online. Pedimos R$ 6 mil e conseguimos quase o dobro. Com isso, alugamos um espaço e planejamos duas sessões de forma independente.

“Não ficamos na cidade por causa da quantidade de ameaças que havíamos sofrido. Quando a gente desceu em Maceió, vimos que o desembargador Sílvio Neves Baptista Filho tinha aprovado a performance. Eles tentaram então um recurso para proibir, mas outro desembargador, Cândido Saraiva, reforçou que a performance precisava estar na programação do festival.

“Quando a produção do evento nos ligou, eles não tinham espaço para nos apresentarmos. Nós já tínhamos conseguido isso com a vaquinha, e, então, eles levaram a infraestrutura e os seguranças deles para lá [uma distância de cerca de 3 km], que ficaram junto com os seguranças que nós já havíamos contratado.

“Decidimos então juntar as duas sessões planejadas – a de 17h e a de 18h – em uma só, para nos apresentarmos novamente às 21h, dessa vez pelo próprio festival. Quando acabou a primeira sessão, enquanto eu falava com o público e com alguns jornalistas no intervalo, soltaram uma bomba no palco. Os policiais foram atrás das pessoas, não conseguiriam prender os responsáveis. Logo em seguida, chegaram os oficiais de justiça querendo censurar novamente a peça.

“Tanto o festival quanto a Fundarpe estavam ameaçando a gente no nosso espaço privado, sendo extremamente violentos. Eles queriam desmontar tudo e retirar a gente do palco, mas eu disse que nós podíamos simplesmente não fazer essa última sessão pelo evento e realizar de forma independente, como já havíamos programado antes.

“A curadoria [do evento] nos rejeitou logo assim que surgiu essa polêmica com a peça. Deixaram a gente na mão, mesmo. Inclusive, os seguranças que eles contrataram para nos defender queriam me bater, um deles até ameaçou de me dar um soco.

“Nisso, o público começou a gritar: ‘não, ela é atriz!’ e, então, eu mandei as pessoas entrarem, porque estavam tentando nos censurar de novo. Nós fomos mais espertas porque depois eu vi pelos vídeos e pelas fotos que eles chegaram a chamar o Exército e uma tropa de choque com escudos para impedir que o público entrasse.

“Começamos então a segunda sessão, e a organização do evento começou a tirar as coisas do palco enquanto eu me apresentava. Nós fomos para a chuva e as cerca de 400 pessoas ficaram lá assistindo com a gente, embaixo de chuva também. Foi lindo. Ainda assim, eles continuaram tirando as coisas do palco, fazendo barulho para tentarem me atrapalhar. Nesse momento, eu fui para o fundo do palco de novo e falei com eles: “Vocês querem que eu quebre tudo aqui de novo?”. Eles continuaram, e eu derrubei mais duas cadeiras. Nisso, o público chegou perto, e escoltou os seguranças contratados pelo festival para fora do lugar.

“Esse episódio todo foi de um desrespeito muito grande. Foi a transfobia institucionalizada. Claro, toda censura agride, como aconteceu em Salvador, em Jundiaí e até no Rio de Janeiro. Mas essa de Garanhuns foi sem dúvidas a mais violenta que nós já sofremos com a peça. Em todos os lugares que nos apresentamos, temos problema. Já precisamos fazer a peça com policiais nos vigiando dentro da sala de apresentação. Mas Garanhuns foi muito pior.

Classe artística calada

A Daniela [Mercury] e o Johnny [Hooker] foram bem pontuais no fortalecimento e nos seus discursos. Mas, sinceramente, eu acho que os artistas se calaram no Brasil. As pessoas acham que a censura é na Renata, mas não. A gente só dá precedente para [a exposição] “Queermuseu”; [a performance] “La Bête”; um quadro ser apreendido, em Goiás… Esses episódios só abrem mais jurisprudência para que a censura continue acontecendo.

Quando estudei a ditadura militar para uma peça, há alguns anos, eu sempre me perguntei o que eu faria naquela situação porque é algo que sempre me deixou muito revoltada. Hoje, eu vejo que luto.

Claro, grandes artistas – como Armando Babaioff, Felipe Catto e Caio Prado – têm se manifestado e demonstrado apoio, mas a grande maioria tem feito isso de forma anônima. Ainda falta apoio de quem tem o poder da fala e o entendimento como artista, que é o caso da Daniela e do Johnny. A maioria dos artistas não tem se pronunciado porque se trata de uma travesti. Queria ver se fosse com qualquer outro ator no Brasil, que sofresse consecutivamente o que eu estou sofrendo, se as pessoas não teriam se mobilizado. Se não teriam subido hashtags como “somos todos fulano de tal”, “estamos juntos”, “censura nunca mais”…

Mas eu estou em um lugar onde meu teatro e minha arte não são validados. As pessoas que validam o teatro não veem a arte trans.

O melhor de tudo é que estamos discutindo sobre travestilidade e transexualidade. A gente precisa disso. Quando eu fundei o Movimento Nacional de Artistas Trans, as pessoas me diziam que não existia artista transexual, muito menos que fosse bom. Esse argumento já foi por água abaixo, porque hoje podemos ver exemplos como [a norte-americana] Laverne Cox, a série “Pose” [com o maior elenco de artistas trans na história da TV], a Rogéria… Nós sempre estivemos na arte, mas o nosso corpo é desconfortável de ser visto ali.

O teatro é o lugar mais democrático que eu conheço no mundo, pena que os atores cisgêneros não sabem disso. Sou atriz há 22 anos e há 22 anos tentam me tirar do teatro.

O preconceito está no que as pessoas imaginam ser uma travesti, na construção social do que é ser uma travesti. Eu poderia ganhar três Oscars seguidos que eu ainda seria uma travesti. Antes de fazer qualquer coisa, eu sou uma travesti. É isso que vai à minha frente, é isso que marca o meu corpo. Por isso que a representatividade trans é tão importante. Nós precisamos falar sobre cisgeneridade, porque esse não é um gênero superior. Nós somos todos iguais.

The Intercept Brasil