Amor que não se mede: pai sustenta os filhos com o material reciclado que vende do Lixão

“É daqui que levo o sustento da casa. Consegui criar meus filhos tendo essa profissão. Andar de cabeça erguida e ter filhos responsáveis que tiveram como exemplo os meus ensinamentos, é gratificante”, disse Domingos – Fotos: Regiclay Saady

Por Dell Pinheiro – dell.81@hotmail.com – Mãos calejadas, sorriso tímido no canto da boca e muita disposição para enfrentar as dificuldades impostas pela vida. A rotina de trabalho de Valdemir Domingos da Silva, 49 anos, natural de Sena Madureira, é dura, mas não questionada por ele. Muito pelo contrário. Para esse lutador, que tem que matar um leão por dia, como diz o dito popular, o ofício de reciclador no ‘Lixão’ de Rio Branco, localizado na estrada Transacreana, é honroso.

“É daqui que levo o sustento da casa. Consegui criar meus filhos tendo essa profissão. Andar de cabeça erguida e ter filhos responsáveis que tiveram como exemplo os meus ensinamentos, é gratificante”, disse Domingos.

Para esse lutador, que tem que matar um leão por dia, como diz o dito popular, o ofício de reciclador no ‘Lixão’ é honroso

Silva é pai de seis filhos, dois deles trabalham com ele no aterro, junto com sua esposa e mais dois genros. “Vivo dessa profissão há nove anos, desde que cheguei de Sena. Apenas uma filha mora em outro local, mais o restante da ‘filharada’ está comigo. Sou reciclador com orgulho, meus filhos não sentem vergonha de mim. Todos sabem que o que faço e por eles. O trabalho é de sol a sol, tenho que correr atrás. Foi assim por toda a minha vida. Enquanto Deus não me der outro emprego melhor, é daqui que vou sobrevivendo e criando os meus”.

Seu Valdemir comentou que todos os filhos trabalham com reciclagem e se orgulha em dizer que todos trilharam o caminho do bem. “Se é para entrar no mundo do crime, fazendo coisa que não presta, é melhor está aqui. Toda profissão é importante, ensinei isso para eles. Vemos muitos jovens morrendo por conta da violência, entrando em facção, isso é horrível. Aqui meus filhos já encontraram coisas de valor como cordão de ouro e até dinheiro”.

Domingos mora no bairro Tancredo Neves e acorda cedo para a labuta. “Chego aqui no ‘Lixão’ umas seis da manhã, mas antes deixo o café da manhã para os meus filhos, não é muita coisa, mas o pão e o leite não faltam. Luto muito para sobreviver e quero a felicidade de todos que estão em minha volta. É gratificante ser pai, principalmente quando você é respeitado. Porém, existe muito ‘camarada’ que põe filho no mundo, mas não ajuda a mãe a criar”.

Elissandro Lima da Silva, 24 anos, que trabalha junto com seu pai no aterro, falou sobre Valdemir, que para ele, é um homem integro e honrado. “Papai não pode me dar riqueza, nada que o dinheiro possa comprar, mas ensinou todos os seus filhos a ter responsabilidade e nunca pegar o que é dos outros. Trabalho junto com ele com muita satisfação. Tenho fé em Deus que um dia as coisas irão melhorar. Agradeço tudo que meu pai fez e ainda faz por mim e pelos meus irmãos. Obrigado por tudo, meu pai”.