Agora é tarde

Tereza Cruvinel

O quadro eleitoral segue anômalo, as projeções de crescimento despencam, o dólar volta a subir, o pessimismo e a violência campeiam. E para completar, o avanço das investigações envolvendo o presidente Temer podem levar à apresentação de uma terceira denúncia. Se ela vier, na curva da campanha eleitoral, que farão os deputados em busca de votos?

Num sinal de que o Congresso conta com essa possibilidade, o Senado deve pautar em plenário, esta semana, o projeto do senador Ronaldo Caiado, já aprovado em comissão, que regulamenta a eleição indireta do presidente da República quando a vacância ocorre nos dois anos finais do mandato. Seria o caso, com eventual afastamento de Temer.

Aparentemente, os que têm voz ativa na Câmara acham completamente improducente afastar o presidente faltando tão pouco tempo para o pleito. Se a procuradora-geral Raquel Dodge apresentar a denúncia, ela chegará à Câmara na segunda quinzena de julho. O prazo para a conclusão do inquérito dos portos, como é chamado, termina no início daquele mês. A votação ocorreria em agosto, mês crucial para o processo eleitoral. No dia 5 termina o prazo para a realização de convenções, no dia 15 o de registro de candidaturas, e no dia 16 começa o horário eleitoral no rádio e na televisão. O primeiro turno será em 7 de outubro. O país não ganha nada com a poluição do processo eleitoral pelo afastamento de Temer e a eleição indireta de um presidente que governaria apenas quatro meses.

Mas a lógica eleitoral diz que boa parte dos deputados da base governista, hoje completamente rota, poderia ser tentada a aprovar a eventual denúncia, buscando marcar pontos com o eleitorado. Colar em Temer, rejeitado por 82% da população e aprovado por apenas 3% (os que acham seu governo ótimo ou bom), tornou-se uma temeridade. Os eleitores serão lembrados pela oposição dos nomes dos deputados que votaram a favor do impeachment e a favor de Temer nas duas primeiras denúncias, de modo que derrubá-lo agora dificilmente daria votos a quem o colocou e manteve no Planalto. Ainda assim, a maioria pode ser tentada a apostar na memória do fato mais recente.

E quem seria o candidato? Para ser o deputado Rodrigo Maia, sempre falado para tal hipótese, ele não poderia substituir Temer imediatamente, até à ocorrência do pleito indireto dentro de 30 dias. Sobraria para a presidente do STF, Cármen Lúcia, se ela ainda fosse presidente no momento da eventual vacância. Seu sucessor, em setembro, será Dias Toffoli. Maia, se eleito indiretamente, poderia disputar a reeleição no cargo.

Seria muita confusão para um país que já foi tão açoitado pela instabilidade de 2016 para cá. As promessas do impeachment foram todas para o ralo: não houve ajuste, nem crescimento, nem ordem, nem progresso. Com a Justiça, de todo modo, Temer tem um encontro marcado quando deixar o cargo. Nesta altura, garantir a eleição tornou-se a questão mais importante. No Datafolha, os entrevistados são pessimistas em relação a tudo mas acham que a vida e a política vão melhorar com a eleição.

A chave do processo

Os eleitores praticamente não se moveram, exceto para reprovar ainda mais o governo Temer, na pesquisa Datafolha: Lula continua liderando, seguido de Bolsonaro, que ao contrário do previsto, não desinflou. A centro-direita segue rachada e raquítica. Apenas Ciro Gomes se move um pouquinho na ausência de Lula. Fala-se em inércia do eleitor, mas uma parte deles deve estar esperando para ver o que fará o PT. Sem que os 30% de votos de Lula encontrem um destino, não haverá movimentos definidores. A pesquisa diz que ele pode influenciar até 47% dos eleitores (30%, com certeza, 17%, talvez). É como se, ao ser preso, ele tivesse levado a chave do processo.
Como a definição do PT só acontecerá em agosto, os concorrentes devem tratar de fechar suas alianças, escolher seus vices e tocar em frente.

Jornalista
Fonte: Jornal do Brasil