A Semântica… (Além da Linha Vermelha…)

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A semântica.

Por gentileza, procure a semântica neste texto que estendo no Varal.

Os gregos antigos usavam a semântica para estudar o significado dos escritos, símbolos, sinais. E o que eles constituem, a sua denotação.

Então.

Quando eu era Deputado Federal, morava próximo de um centro comercial que abrigava um cinema, na Asa Sul da nossa Capital, uns trezentos passos do meu apartamento.

Era o “Cine Karim”. Ele continha a maior tela da América do Sul.

Assisti a obras comoventes, como se estivesse dentro das cenas.

Anos depois, quando numa viagem à Brasília, constatei que o cine fora fechado. Em seu lugar funcionava um templo evangélico, alugado – salvo engano – pela Igreja Universal. Uma tristeza invadiu-me. Uma tristeza semântica.

Foi no Cine Karim que assisti duas, três vezes, uma das maiores obras do cinema sobre a Segunda Guerra Mundial.

Deu-se assim.

Quando Terrence Malick, discreto e renomado diretor de cinema, anunciou no final dos anos 1990 que voltaria a filmar, vinte anos depois do seu “Cinzas do Paraíso”, vários atores consagrados se ofereceram gratuitamente para suas lentes. Sabiam que viria um grande filme. Malick preferiu atores novos e apenas alguns outros mais conhecidos.

Assim nasceu “Além da Linha Vermelha” (1998, sete indicações ao Oscar). Um denso e profundo filme psicofilosófico, assustador e realista, sobre o caos militar e moral que ocorreu no Pacífico de agosto de 1942 a fevereiro de 1943 na ilha de Guadalcanal, palco de uma das maiores batalhas (terrestre e aeronaval) que envolveu norte-americanos, australianos e japoneses.

Terrence Malick, além de diretor, é filósofo. E grande conhecedor de Heidegger, pensador existencialista alemão que deu aulas à Hannah Arendt e influenciou Sartre.

É visível a presença das ideias de Heidegger em “Além da Linha Vermelha”. A imagem do homem sendo medida por suas realizações anteriores, onde seu ser é um “ser que caminha para a morte”, pondo toda a visão e prática de mundo num diálogo permanente entre preocupação, angústia, conhecimento e complexo de culpa na sua existência. Para Heidegger, o homem está sempre impulsionado a dar um salto qualitativo para atingir seu verdadeiro “eu”, libertando-se das aparências cotidianas.

“Além da Linha Vermelha” é um exemplo de busca desse “salto”. Um grupo se soldados precisa vencer a qualquer custo uma linha inimiga e também seus dilemas. Ultrapassá-la é o fim do caminho do fim.

Com atuações brilhantes (Sean Penn, Jim Caviezel, Nick Nolte e outros), o filme leva a uma interação quieta e comovente entre o espectador e as reflexões em “off”, subjetivas, dos soldados que sintetizam seus dramas no pandemônio das trincheiras. Após assisti-lo, ficamos numa mística sobre a volatilidade de nossa existência. Mesmo assim, ao invés de vazio, saímos dando uma luz diferenciada, mais intensa, à vida.

Todos nós temos nossas linhas vermelhas a ultrapassar. Elas surgem de vez em quando no amor, na família, no trabalho, na política e em algumas decisões, que chamo Decisões de Vida. É quando a prática vem como consequência de um pensar filosófico, denso, para a mudança.

Outro dia, conversava com uma universitária sobre ideias importantes de Karl Marx. Naturalmente, veio à tona sua célebre frase escrita em 1845 nas Teses sobre Feuerbach: “Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes; a questão, porém, é transformá-lo.” Marx estava, na sua época, em uma digladiação de fundo sobre pensamento e práxis. Mas sua ideia leva à confiança que devemos ter em colocar o que analisamos em favor das modificações no tempo e no espaço.

Há uma semana, votamos e decidimos sobre o destino de nossas cidades. Fomos a esta eleição sob um Golpe covarde em nosso país. Que rumos agora nossas cidades tomarão? Quais as linhas que devemos ultrapassar para alcançar mais cidadania, justiça, bem-estar, saúde, educação, cultura e trabalho?

E, o mais importante: quais as lições que as eleições trazem para o futuro político do Brasil, golpeado por políticos corruptos, por uma horda midiática mentirosa, um judiciário desmoralizado e uma polícia espetaculosa e seletiva?

A linha vermelha do filme é de um episódio histórico do passado e com algumas licenças poéticas. Mas a nossa linha vermelha é real, presente, palpável e vai de encontro a ideias a serem fortalecidas e construídas para mais além.

Voltamos para as trincheiras.

É hora de processar, ajustar táticas, focar estratégias.

Acreditar no bom senso, na força do povo brasileiro, no poder vibrante da Democracia.

Estamos na trincheira.

Mas, estamos vivos.

E, sempre me ergo, levantando com as mãos uma bandeira, obviamente, vermelha…

Voltaremos ao futuro. Acredito nisso.

VEJA O TRAILER DO FILME:

NOTA: Este artigo é uma adaptação de outro texto, que estendi no Varal em 23 de setembro de 2012.

Marcos Afonso é jornalista e professor.
“Hasta la victoria siempre!”