A escaramuça jurídica e a sobra eleitoral

Tereza Cruvinel

O Direito saiu perdendo, a imagem da Justiça, arranhada, e o ex-presidente Lula continuou preso. Mas a escaramuça jurídica de domingo sobre sua soltura, pelos atores envolvidos e as estripulias cometidas, devem ter também efeitos eleitorais.

Só com uma nova pesquisa de intenção de voto saberemos a força delas e a favor de quem.

Uma consequência já se fez sentir no PSB que, depois de domingo, freou o movimento de adesão a Ciro Gomes, voltando a considerar a hipótese de aliança nacional com o PT.

Vai além do terreiro petista a crença de que, embora fracassando no objetivo aparente de tirar Lula da prisão, a iniciativa dos deputados que pediram o habeas corpus alcançou o objetivo subjacente, o fortalecimento da estratégia eleitoral petista: insistir na candidatura Lula, preservando a coesão de sua base eleitoral (que soma um terço do eleitorado), até que venha uma impugnação irrecorrível, quando seria indicado o substituto e deflagrado o esforço de transferência de votos.

De domingo para cá, o PT ganhou novo gás.

Marcou manifestações para o dia 13 julho (pegando a onda do centenário de nascimento de Mandela) e para 15 de agosto, quando será pedido o registro da candidatura de Lula junto ao TSE.

A campanha internacional foi retomada com o manifesto de líderes políticos latino-americanos, encabeçado pela ex-presidente chilena Michele Bachelet, que defenderá junto ao STF o direito de Lula de concorrer.

E na frente jurídica, a batalha vai prosseguir, apostando inclusive nas interinidades do ministro Dias Toffolli na presidência da corte.

Na próxima quinzena a ministra Cármen Lúcia substituirá Michel Temer em três viagens ao exterior.

As sobras eleitorais da guerrilha judicial de domingo seriam do PT porque teriam reforçado a percepção de que Lula é perseguido e está preso para não ser candidato.

O juiz Sergio Moro expôs-se de forma sem precedentes como verdugo de Lula, ao ordenar à Polícia Federal que ignorasse o alvará de soltura, incorrendo em desobediência à Justiça.

E se Favretto não tinha competência para expedi-lo, o desembargador Gebran Neto também foi além das tamancas ao revogar a ordem do colega, pois deixou de ser relator quando a matéria foi julgada.

Ele, Moro e Favretto agora terão suas condutas examinadas pelo Conselho Nacional de Justiça. Todos pisaram nos tomates.

A decisão do PSB é uma das mais esperadas no jogo das alianças desde que Joaquim Barbosa desistiu de concorrer.

Segundo um dirigente do partido, há 15 dias era forte a tendência a favor do apoio ao candidato do PDT, Ciro Gomes, com liberação dos estados onde o partido já avançou em alianças com o PT para a disputa de governos estaduais.

Depois de domingo, diz o dirigente, houve um refluxo em favor da aliança com o PT no plano nacional e tudo parou, diz ele.

Haverá uma reunião da Executiva no próximo dia 16, mas a decisão só será tomada no congresso do partido marcado para 5 de agosto, último dia do prazo para convenções, aprovação de candidaturas e coligações.

Até lá, as pesquisas terão indicado os efeitos do domingo em que a Justiça escancarou sua contaminação política.

Jornalista

Fonte: http://www.jb.com.br