A Dona Estatística do Moisés…

Existem pessoas que parecem viver em um Universo Paralelo. Algumas, até mesmo por opção. Preferem uma vida focada na escuridão tenebrosa do Pessimismo, pleiteiam a vida festejando o fundo da Caverna platônica.

Outro dia, conversava com a atriz Karla Kristina Martins, Presidente da nossa Fundação de Cultura, e ela me deu uma síntese muito sábia: “Professor, muitos acreanos não possuem parâmetros, desconhecem padrões de equivalência, e isso influi às visões críticas limitadas e injustas da nova realidade que estamos construindo no Acre”.

É verdade. Por mais que você apresente argumentos históricos, sociológicos, macroeconômicos das mudanças operadas pela nossa geração, soma das experiências lideradas por Jorge Viana, Binho Marques e, agora, pelos governos de Tião Viana, alguém sempre desdenha. Seja por um criticismo fácil (que não apresenta alternativa) ou por pura anorexia intelectual mesmo. Ou raiva insana.

Alguns, na impotência política de reconhecer ações que visam o bem estar coletivo, arvoram-se: “Não fazem mais do que a obrigação”. Ou então, arrematam: “Cadê os números?”.

Pois bem. Aqui estão os números, neste artigo maravilhoso do Deputado Federal Moisés Diniz (PC do B – AC), que tenho o dever de estender em nosso Varal de Ideias.

Conheci o Moisés Diniz em meados dos anos 1980, quando ele se tornou comunista. Natural de Cruzeiro do Sul, Moisés dedicou boa parte de sua vida militante nas margens do Rio das Tronqueiras, Tarauacá, na língua Huni Kuin.

Muito grato pela autorização da publicação.

A Dona Estatística

(Por Moisés Diniz)

A Dona Estatística é uma senhora sisuda, de poucos amigos, mas, tem uma qualidade incomparável: diz pra gente o que está acontecendo no cotidiano da vida.

Dia desses, ela proferiu uma palestra fora do Acre, o meu Estado, e deixou a plateia atônita.

Será possível uma Senhora dessa idade mentir? Ainda bem que ela matava a cobra e mostrava o pau, indicando os seus filhos que iam pra rua pesquisar, instituições como ONU, IBGE, INEP, Fundação Getúlio Vargas.

OLHA SÓ O QUE ELA DISSE:

No Ideb, do 6º ao 9º ano, o Acre ficou em 3º lugar, perdendo apenas para Minas Gerais e Goiás. Aqui reside a primeira dificuldade de entender esse resultado. Estados como São Paulo e Rio de Janeiro, por exemplo, não são apenas muito ricos, com fábricas e até royalties de petróleo. O ensino médio deles tem mais de trezentos anos. O nosso ensino médio era quase uma lenda: há vinte anos não havia escolas de 2º grau em 40% dos municípios acreanos.

VEJA SÓ O QUE A DONA ESTATÍSTICA FALOU:

O Acre reduziu em 15% as taxas de desmatamento entre 2004 e 2015. O Acre reduziu de 309 km² para 264 km² em área desmatada. Em 2004, a extensão de desmatamento era 728 km². Isso significa dizer que, em onze anos, o Acre deixou de desmatar 464 km².

A geração atual nunca vai saber o que foi protegido de animais, insetos, peixes, aves, árvores, plantas, água e toda a riqueza que isso envolve os princípios ativos que produzirão remédios contra doenças poderosas e os alimentos novos e tudo que virá das novas e avançadas tecnologias.

Lamentavelmente, a nossa geração ficará elogiando as regiões que aumentaram sua devastação, aumentaram seu PIB e geraram empregos passageiros, enquanto durou aquele bem natural.

E A DONA ESTATÍSTICA NÃO PAROU DE FALAR:

O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento incluiu o Acre entre os três Estados que mais avançou no índice do IDHM-Educação, entre 2011 e 2014.

Como pode isso? Se os recursos constitucionais para a Educação são de acordo com a população e não criam um valor adicional para Estados distantes como o Acre.

Então, nosso Governador e nossos prefeitos compram o material escolar e outros insumos que rodam 4.000 km, com o mesmo valor proporcional de Estados que compram nas fábricas ao lado de suas escolas.

O que está acontecendo? Nossas escolas fundamentais não têm oitenta anos de existência e, em 40% dos nossos municípios, não têm trinta anos. Como podemos estar vencendo em quase todos os índices educacionais, contra poderosos, ricos e litorâneos Estados?

DONA ESTATÍSTICA AINDA DISSE:

O Acre já realizou 220 transplantes de rim, córnea e fígado, desde 2006.

Como pode isso? Um Estado distante, com voos escassos, aonde tudo conspira contra, na tecnologia, na dificuldade de acessar órgãos doados, que não atrai especialistas pela distância dos grandes centros.

ENTÃO, DONA ESTATÍSTICA CONCLUIU:

Desde 2000, o Acre reduziu 49% a mortalidade infantil, sendo o Estado com melhor desempenho na Região Norte. E, nos últimos oito anos, a mortalidade infantil caiu cerca de 40%, praticamente o período de governo do médico Tião Viana.

Isso vale mais do que qualquer conjunto de pontes e avenidas, porque salvou a vida dos nossos pequeninos, especialmente os mais pobres.

Por isso, não dá pra entender como ultrapassamos Estados ricos e poderosos, industrializados, litorâneos, com royalties e turísticos. O que essa elite sem alma fez por lá com os recursos da nação?

Por isso, é preciso, pelo menos, dar bom dia à Dona Estatística, nesse tempo que vivemos de desencanto político e de tentativa de jogar no lixo não só o lixo, mas, o ouro das grandes conquistas, a vida que se salvou pelo esforço na Saúde, o adolescente que virou doutor pela boa Educação.

E ainda haveremos de colher novos louros, com o Quero Ler, programa de erradicação do analfabetismo, e o Instituto de Matemática, Ciências e Filosofia.

Porque Davi era o outro nome do Acre, um Estado pequenino que nasceu pra vencer gigantes.

Moisés Diniz, membro da Academia Acreana de Letras e deputado federal (PCdoB/AC)

PS: Artigo publicado originalmente no http://acciolytk.blogspot.com.br/2016/12/artigo-dona-estatistica-moises-diniz.html?m=1

Marcos Afonso é jornalista e professor.

Hasta la victoria siempre!