Uma intromissão

Foto: Cedida

Francisco Gregório Filho (*)

Conterrâneos leitores,

Peço aqui inicialmente consentimento, sim? Aprendi com meu avô. Ele me dizia: “Quando entrares em um espaço bonito e com pessoas bonitas e inteligentes, peça consentimento, licença, permissão!” Pois cá estou eu solicitando este consentimento para participar deste poético lugar. Agradeço o convite e o privilegio para adentrar a esses escritos de coragem e bonitezas. Permitam-me ainda, chamá-los de conterrâneos, leitores e parceiros.

Nasci no bairro da Capoeira, em Rio Branco/Acre, e cresci morando ali e depois nos bairros do Bosque, Cerâmica e Capoeira, novamente, bairros de muita oralidade entre as famílias e suas casas. Claro, a escrita e o letramento presentes nas bodegas e mesmo nas ruas, oferecendo algumas anotações e indicações. No entanto, a presença do rádio, na segunda metade do século XX, foi determinante para as boas conversas e trocas de informações e saberes, somadas às histórias contadas por nossos avós. Digamos, enfim, que convivíamos em um universo da oratura (oralidade + escritura). É o que me parece ao entrar em contato com esses registros dos escritores aqui publicados. Percebo como leitor livre, lendo este livro, uma presença ainda forte desta oratura, que tanto contribuiu e contribui para a expressão de nosso olhar particular sobre o mundo interno e externo de nossa formação de leitor e escritor. Somos complexos como toda humanidade, e é evidente que quando nos expressamos, revelamos pluralidades de sentimentos e maneiras de compreendermos quem somos e/ou desejamos ser, em nossas relações: singulares, autorais e até possivelmente, inaugurais. Complexos e generosos conosco e com o entorno.

Bom, assim, leio esses textos poéticos e prosaicos. Congratulo-me com a iniciativa de publicá-los. Oportunidade para que conheçamos essa permanência humana complexa e solidária. Somos contadores de histórias e aí expomos nossa formação de ouvintes/leitores ou leitores/ouvintes. Afirmo que esta impressão suscitada em mim não é absoluta, temos que relativizar e, evidentemente, prosear e/ou poetar com outras impressões. Necessário se faz a leitura de todos os escritos vagarosamente, saboreando e entrelaçando, dentro do possível, um ao outro, num exercício de costura e tessitura, que pede tempo, conversas e quietudes. Um bom convite posto e proposto para nós leitores de um tempo apressado, de urgências e precipitações.

Considero o Acre um território acolhedor de vários sotaques e diversos diálogos culturais. Temos, sim, a abertura para o diferente de nós, ou melhor, somamos essas diferenças em nós. Precisamos desta soma transparente, destes acréscimos para melhor nos harmonizarmos. Bem, aí está nossa riqueza humana, ampliada pelo outro, agregada como um mosaico, como um museu de patrimônios e saberes.

Assim, sinto-me convidado e ao mesmo tempo gostaria de convidá-los a adentrar a esses escritos inventivos e sonhadores, culturais e humanos. Sublinho a importância da iniciativa e parabenizo a todos os envolvidos nesta bela ação de escrever e publicar corajosamente.

Perceberam vocês, amigos leitores, minhas dificuldades em escrever e, de antemão, peço perdão. É que sou um contador de histórias, um narrador – aquele que narra a dor. Sigo em minha trajetória de vida compartilhando as vozes dos ancestrais que me chegaram docemente pelas ruas, da querida Rio Branco.

Aplausos para os poetas e escritores aqui reunidos nesta antologia que, de certa maneira, registram um período da história cultural do Acre.

Francisco Gregório Filho, um acreano, contador de histórias, apaixonado pelas artes, sem exceção, e crente na capacidade dessas artes como instrumento de transformação de um povo, há 55 anos atua na área cultural sempre com esse fim. Funcionário público federal aposentado do quadro da Biblioteca Nacional. Atualmente reside no Rio de Janeiro.