Um roteiro, múltiplos roteiros

Foto: Reprodução

Por Francisco Dandão (*)

Uma vez chegado a este mundo, depois da confortável estada no ventre materno, um ser humano passa a empreender diversos roteiros de viagens. No primeiro roteiro, que eu diria contínuo, o que guia os seus passos são as ações e as experiências de cada dia. No segundo, que eu entendo fragmentado, não existe mais um porto específico para cada partida.

No caso do escritor Valdeci Duarte, o primeiro roteiro de viagem é aquele que o trouxe do seu local de origem, nos arredores de Boca do Acre, na década de 1980, até aqui, funcionário público e pai de família. O segundo roteiro é o de cultor de sonhos e utopias, manipulador de ideias, cujo mote inspirador pode estar em qualquer lugar ou não estar em lugar algum.

Embora um roteiro não possa ser desvinculado do outro, o que interessa primordialmente para esse instante em que me ponho a tecer considerações sobre o Valdeci é a segunda parte da história, a da ausência de porto de partida, posto que cada nova obra começa num espaço de indeterminação, fruto de um somatório de esforços sucessivos e únicos.

Essa soma de esforços sucessivos e únicos é que nos traz até o presente momento, na trilha do segundo roteiro, quando Valdeci presenteia os leitores do mundo com mais um livro: Completando o time dos craques. Uma obra que demonstra todo o amadurecimento do autor enquanto esteta das letras. Uma espécie de catarse, dado a sua confessada aversão ao tema proposto.

É um livro sobre futebol e memória. Mas pode ser também um livro sobre “não-futebol” e “des-memória”. Valdeci faz um ajuste de contas com a bola, que, segundo ele, sempre insistiu em desobedecer as suas ordens. O último a ser escolhido no par ou ímpar da pelada, a obrigação de torcer por algum time… As dolorosas estadas no banco de reservas… As raras vitórias…

E então, ao tempo em que conta as suas desventuras, ele vai lembrando do seu primeiro roteiro de vida, no campo, na “cerca”, na escola, nas discussões acaloradas sobre as cores do céu e dos clubes, valorizando os detalhes de cada situação. Valorizar os detalhes de uma memória que se esvai é, a um só tempo, estabelecer singularidades e imprimir ternura ao passado.

O pedacinho de cada campo, lama ou terra, jamais grama, salta da lembrança do Valdeci e se transforma em metáfora de um time que somente sabia perder. Os jogadores do Tentativas Futebol Clube eram estrelas cuja luz a bola tratava de apagar. Alguns foram ser coadjuvantes na vida. Outros, como o autor deste livro, foram brilhar nos céus de outras galáxias.

Eu, que tive o prazer de ler os originais, dado o convite do autor para escrever este prefácio, posso afiançar que sou um homem de desvairada sorte. Ler em primeira mão os originais de um livro do jovem escritor Valdeci Duarte só pode ser traduzido como algum tipo de desígnio divino. Afinal, ele é um artista cuja emoção flui de forma intensa das suas palavras.

E assim, entre sortilégios e bons augúrios, chego ao fim deste breve texto, garantindo que este novo livro do Valdeci Duarte é o convocado perfeito para completar o “time de craques” dos leitores que venham a adquiri-lo. Afinal, ler, assim como jogar peladas em campos de periferia, tem que ser sempre a troco de muito prazer. Bolas e nuvens se encontram aqui!

(*) Francisco Dandão – Jornalista, escritor e membro da Academia Acreana de Letras – Cadeira 28 -.

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