Só dói quando eu rio

Paulo José Cunha

Uma coisa o novo governo já nos garantiu, e com sobra: vamos rir às bandeiras despregadas, tantas são as asneiras que os digníssimos integrantes do ministério de Sua Excelência vêm distribuindo em generosas porções dia sim e outro também.

Se esse governo não despencar para o autoritarismo – possibilidade considerável, diga-se – o humor será a tônica da nova administração. O último governo que forneceu boa quantidade de gozação foi o de Dilma. E não delegava a ninguém essa tarefa. Ela própria, com suas maluquices que compõem um volumoso compêndio, permitiu algumas pausas de relaxamento entre uma e outra atrocidade cometida na economia, quadro que contribuiu decididamente para seu impeachment.

De cabeça, dá pra lembrar aquela de deixar a meta aberta mas quando atingir a meta vai dobrar a meta, algo assim. Tem também a saudação da mandioca e daquele “projeto” para estocar vento. E aquela, ah, aquela é ótima, deixa eu puxar do Google. Pronto, está aqui: “Quem ganhar ou quem perder, nem quem vai ganhar nem quem vai perder vai ganhar ou perder, vai todo mundo perder”.

Fantástica! E aquela outra do mosquito, que “se ele não nascer ele não vai viver”. O estoque não acaba, mas tem uma que se tornou um clássico instantâneo: a de que quando criamos uma bola “nos tornamos homo sapiens ou mulher sapiens”. Ge-ni-al!

É infinita a capacidade de produzir imbecilidades

Ihh… Se ficar lembrando o espaço acaba e não chego ao ponto que interessa. Que é exatamente a enorme capacidade de produção de imbecilidades dos integrantes do primeiro escalão do novo governo.

Por justiça, deve-se ressaltar que Bolsonaro não fala idiotices, faz pior: solta afirmações perigosas e agressivas, que já lhe custaram penalidades como o pagamento de multas por ofensas a mulheres, negros, homossexuais etc.

A tarefa de municiar o governo de idiotices ele delegou a seus auxiliares diretos. E eles vêm se saindo tão bem na tarefa que até os primeiros e malfadados atos do novo governo – como o aumento do IOF (que ele próprio anunciou e foi desmentido em seguida, o que prova que assina o que não lê), a transferência da Funai para o controle da ruralista Teresa Cristina, além de anúncios bombásticos como a liberalização maior no direito ao porte de armas, tudo isso têm passado batido. Não tem provocado reação popular.

Alguns observadores já identificam até a possibilidade de as idiotices não serem atos falhos mas virem sendo produzidas de caso pensado, justamente para funcionar como cortina de fumaça para as ações mais polêmicas.

Tudo azul ou tudo cor-de-rosa?

A ministra Damares não pode chegar perto de um microfone ou de uma câmera que imediatamente produz, com rara eficiência, alguma frase ou relato hilário. Os dois mais famosos até aqui são o de Jesus na goiabeira e este último, impagável, dos meninos terem de vestir roupa azul e as meninas, rosa.

O que muita gente esquece é que relatos engraçados ou frases desastradas permitem identificar um perigoso conservadorismo de base fanático-religiosa. Uma ministra de Estado não tem o direito de fazer afirmações como a de que “o estado é laico mas esta ministra é terrivelmente cristã”. Nem de ir contra a evolução moral e de costumes para propor a volta dos tempos em que meninos se vestiam de azul e meninas de rosa.

Qualquer calouro de comunicação sabe que a imagem que se sedimenta na opinião pública é a que tem o tom do humor, a que provocou repercussão bem-humorada, e que gerou comentários jocosos na mesa do boteco. Tentar corrigir uma afirmação desastradamente engraçada dizendo que Jesus na goiabeira tem a ver com os abusos que sofreu na infância ou que a referência às cores foi apenas uma metáfora é pior do que sustentar a bobagem proferida. Principalmente em tempos de redes sociais, quando a palavra desmentido simplesmente perdeu o sentido, não serve mais pra nada.

Lá nos anos 70, n’O Pasquim, Ziraldo criou uma charge histórica. Um homem sorridente, atravessado por uma espada, dizia: “Só dói quando eu rio”. Nada mais atual, nada mais genial, nada mais tristemente compatível e simbólico em relação ao momento que o país vive.

Enfim, rir foi o que nos restou. Então, vamos rir. Não sei vocês, mas para mim o meme que sintetizou bem até aqui as imbecilidades já proferidas é uma que mostra a destrambelhada ministra Damares e este erudito de araque, o chanceler Ernesto Araújo, ambos vestindo camisas de força, essas que se usa ou usava nos manicômios. A dele, azul. A dela, rosa. Não precisa dizer mais nada.

Quáááááááááááááááááááá

Jornalista e escritor

Fonte: congressoemfoco.uol.com.br