Sem Lula, apenas Ciro e Boulos se salvam em debate chato e medíocre

Ricardo Kotscho

Com Lula ainda preso em Curitiba, o primeiro debate entre oito presidenciáveis na TV Bandeirantes foi de uma mediocridade comovente, um retrato da degradação da política brasileira.

Lula seria o último remanescente do primeiro debate pós-ditadura, em 1989, do qual participaram, entre outros, Ulysses Guimarães, Leonel Brizola e Mário Covas, o que dá bem uma ideia de quanto regredimos em matéria de lideranças nacionais, até chegarmos ao capitão Bolsonaro e ao cabo Daciolo, uma regressão que ninguém poderia imaginar.

Eu estava neste primeiro debate, como assessor de imprensa de Lula.

Ao ver o desta quinta-feira, senti uma tristeza tão grande e tanto tédio que não consegui assistir até o fim. Me deu sono. Só aguentei ver dois dos cinco blocos.

Cacarecos sempre tivemos em eleições, mas desta vez eles eram maioria.

Daqueles oito candidatos, só se salvaram Ciro Gomes, do PDT, e Guilherme Boulos, do PSOL, os únicos que falaram coisa com coisa, defenderam com firmeza seus pontos de vista e atacaram as reformas do desgoverno Temer.

Como bem disse Boulos, os restantes não passavam de “50 tons de Temer”, com seus discursos de República Velha, prometendo mais educação, saúde e segurança, a favor da energia elétrica e de água encanada, como ouvimos todos os dias naquela entediante enquete da Globo sobre “o Brasil que eu quero”.

Logo no começo parecia que o debate poderia esquentar, com o candidato do PSOL partindo para cima de Bolsonaro, do PSL, mas desta vez o troglodita pré-histórico, que lidera as pesquisas sem Lula, estava manso, refugou.

“Não vim aqui para bater boca”, queixou-se, e devolveu o tempo ao moderador Ricardo Boechat, o melhor ator da noite neste teatro de horrores.

Dali para a frente, o ex-militar só chamou a atenção por ficar sentado o tempo todo, enquanto os outros permaneciam em pé diante do púlpito.

Mais do que ele, ganhou destaque o folclórico cabo Daciolo (quem?), do Patriota, bombeiro e pastor evangélico, que bombou nas redes sociais, sempre invocando Deus em suas pitorescas intervenções.

Eleito pelo PSOL de Boulos, Daciolo já passou por três partidos em seu primeiro mandato de deputado federal pelo Rio.

Mas quem mais apareceu na telinha foi o tucano Geraldo Alckmin. Só não sei se ele ganhou ou perdeu votos com isso, tão monocórdica era sua fala anódina, com o mesmo discurso previsível da campanha de 2006, em que foi derrotado por Lula, tendo menos votos no segundo turno do que no primeiro.

Depois de passar por tantos marqueteiros estrelados em suas campanhas, é incrível como Alckmin não consegue melhorar nem na forma nem no conteúdo, não diz nada de novo, como se ainda fosse candidato a prefeito de Pindamonhangaba.

Tempo de televisão é um perigo: se for muito, como é o caso dele, depois da super-aliança negociada no balcão do Centrão, tanto pode ajudar o candidato como espantar o eleitor.

Alckmin defendeu as reformas do governo Temer com mais enfase do que o ex-ministro Henrique Meirelles, do MDB, ao dizer que a reforma trabalhista é moderna e vai criar mais empregos. Até agora, aconteceu exatamente o contrário. Nenhum dos dois se arriscou a citar o nome do presidente em exercício, rejeitado por nove em cada dez brasileiros.

Com o carisma de um vaso chinês, Meirelles sumiu no debate junto com Marina Silva, dois candidatos que até agora não explicaram o que estão fazendo nesta campanha.

Como já tinha feito com Aécio na campanha de 2014, no papel de linha auxiliar dos tucanos, Marina acabou servindo apenas de escada para Alckmin declamar siglas e números que não dizem absolutamente nada para o eleitor, não emocionam ninguém.

Em trajes de publicitário antigo, Álvaro Dias, de um partido chamado Podemos (o que?), dá mais importância à impostação de voz de locutor de FM do interior do que ao conteúdo para pregar a “Refundação da República”, sem explicar o que quer dizer com isso. Falou mais da Venezuela do que do Brasil. Maduro que se cuide.

E o que mais? Ah, sim, esqueci de falar de Ciro Gomes, mas é que até onde vi ele foi pouco provocado pelos outros candidatos e jornalistas e, desta vez, estava bem light, até sorridente com Jair Bolsonaro, sem escorregar em cascas de banana do outro lado da calçada.

Ciro pelo menos tem um projeto nacional de desenvolvimento, consegue explicar e defender um programa de governo coerente para ressuscitar a economia nacional e dar um pouco de esperança aos brasileiros de que algo possa mudar para melhor a partir de 2019.

Assim como Ciro, Guilherme Boulos tem facilidade para se expressar, usa uma linguagem simples e direta que o povo entende e, em alguns momentos, lembrou o Lula daquele debate de 1989 ao se posicionar contra tudo isso que está aí para combater a indecente desigualdade social, sua principal bandeira.

Mas, sem nenhuma estrutura de campanha, ao contrário do que o PT já tinha naquela época, Boulos não consegue desempacar nas pesquisas.

É o que temos para o momento.

E vai ser assim por mais 57 dias, até a abertura das urnas, a não ser que libertem Lula antes da eleição, algo tão improvável neste momento como acertar na mega-sena.

Vida que segue.

Repórter desde 1964

Fonte: https://www.balaiodokotscho.com.br