Restauração da Catedral: sinal da solidariedade e da oblação de uma comunidade

Padre Manoel Costa*

A Catedral Nossa Senhora de Nazaré, desde sua origem, está associada ao que a Igreja é em sua essência: Instrumento da união do ser humano com Deus e o sinal da unidade do gênero humano. Nós termos união e unidade, a tradição cristã apresenta um caminho de superação de obstáculos e de realizações que edificam o mundo. Foi a união, a oblação de si, e a unidade em torno de um objetivo comum, que tornou possível a realização do projeto grandioso à época, da Catedral Nossa Senhora de Nazaré, “o milagre na Amazônia”. Diz o cronista da época “todo o povo sentia-se comprometido com a construção. Foram muitas as formas de contribuição para que a nossa Catedral ficasse pronta” (Livro de Tombo da Catedral).

Passados 60 anos de sua inauguração, a Restauração da Catedral, no ano de 2018, dá-nos novamente um exemplo da força transformadora da solidariedade, da oblação e da caridade, elementos característicos de uma comunidade humana. Assim, a Restauração da Catedral, permite destacar duas coisas: a importância da comunidade como antídoto ao mal do egoísmo e do individualismo de nossa cultura, e a força transformadora da caridade – dom superior.

A negação do individualismo segregador não se esgota nos princípios do cristianismo. A filosofia aponta para a mesma direção. O Filosofo francês Emmanuel Mounier defende a dimensão associativa e comunitária, ligada à condição existencial de cada pessoa. Para ele “a pessoa é engajada desde o nascimento no seio de uma comunidade”.

Ainda segundo Mounier, a pessoa é um espaço de comunhão. Seu desenvolvimento está ligado a condição de “ser com” outros, em um processo de socialização.

Vivemos numa época de mudanças profundas em relação a outras gerações. A solidez e o estável garantido pelas instituições estão cedendo o lugar à rapidez e à mobilidade do indivíduo: mobilidade do trabalho, de recursos e mobilidade nas relações entre as pessoas.

Mobilidade e rapidez decorrentes dos avanços tecnológicos representam um bem inestimável, mas têm também seu reverso. De um lado, as fronteiras são diminuídas, o mundo adquire um aspecto de “vila global”; tudo se comunica! Eis a interdependência se estabelecendo. Isso é positivo. A consciência que tudo está interligado.

De um outro lado, se estabelece a reivindicação da autonomia. Existe uma concepção de autossuficiência relacionada ao distanciamento de todo vinculo comunitário. Isso tem se mostrado negativo: gera individualismo, pessoas que se compreendem como “blocos acabados”; sobrepõem-se sobre os outros. Não há verdadeira relação!

Tal pensamento tem conduzido o ser humano à uma condição de distanciamento do outro e da natureza. Esta ruptura pode ser considerada como mal, na medida onde nela se encontra as raízes profundas de problemas psicológicos, social e político – que fazem das relações humanas não uma troca de valores edificantes, mas uma troca de aspectos baseado no jurídico e no econômico. Gera isolamento. Nada isolado sobrevive!

O princípio evangélico de que somente quem se perde amando é quem realmente encontra o sentido verdadeiro do “ser-no-mundo” destaca três princípios da essência do cristianismo: solidariedade, oblação e a importância da comunidade.

A Sagrada Escritura apresenta a vida humana fundamentada em três relações: relação com Deus, relação com o irmão (o outro) e relação com a natureza.

Para o autor da Carta ao Efésios: “Há um só corpo, e um só Espírito, como também há uma só esperança a qual fostes chamados. Há um só Senhor, uma só fé e um só batismo, um Deus e Pai de todos, que é o Senhor de todos, que age por meio de todos e está em todos” (Efésios 4, 4-6).

Para a Sagrada Escritura, a comunidade não é um aglomerado de pessoas. Blocos sobrepostos uns sobre os outros.

A palavra comunidade tem sua origem na língua latina e também na língua grega. Comunitas (em latim) é a união de cum e unitas. Significa “ser-com” ou “a unidade de muitos”. A palavra grega para comunidade é Koinonia. Significa “comunhão” e também compartilhar”. A comunidade é fruto da ação do Espírito Santo, pois ele torna possível uma “mesma esperança, a mesma fé, o mesmo Deus…”

Assim, a Restauração da Catedral Nossa Senhora de Nazaré foi possível graças a esta “mesma esperança” que uniu pessoas e instituições em um mesmo “espírito” para partilhar tempo, conhecimento e recursos, afim de construir juntos algo que edifique e que demonstre a força da união e da unidade de uma comunidade. A solidariedade e oblação de si de cada membro da comunidade foi o que tornou possível “edificar a Igreja do Senhor”.

Restaurada, a Catedral Nossa Senhora de Nazaré é um sinal em nossa cidade. Sinal da unidade, da doação, da oblação de si de cada pessoa que depositou sua parte para a edificação do todo. Deus nos pede para fazermos somente nossa parte. Ele fará Sua parte, e será Fiel!

Assim, a Igreja continua um sinal no mundo: sinal do vínculo da unidade dos seres humanos com Deus e dos homens e mulheres entre si. (Concílio Vaticano II).

Muito obrigado a todos que depositaram sua parte de solidariedade, de doação e de oblação de si, na Obra de Restauração da Catedral Nossa Senhora de Nazaré!

Deus te abençoe e te guarde!

*Padre Manoel J. M. Costa é Reitor da Catedral Nossa Senhora de Nazaré