Obrigado, Eleonora de Lucena, porta-voz do Brasil que não se vende e não se entrega

Eleonora de Lucena, ex-editora-executiva da Folha, em evento em 2017 – Foto: Reprodução

Ricardo Kotscho

“Ninguém poderá dizer que não sabia. É ditadura, é tortura, é eliminação física de qualquer oposição, é entrega do país, é domínio estrangeiro, é reino do grande capital, é esmagamento do povo. É censura, é fim de direitos, é licença para sair matando”.

Assim começa o lancinante texto da jornalista Eleonora de Lucena, publicado com o título “Não adianta pedir desculpas daqui a 50 anos”, na página 3 da Folha, nesta quinta-feira.

Nada do que foi escrito até agora sobre estas eleições sujas, manipuladas e fraudadas, desde o início da campanha, chega perto do artigo de Eleonora, ex-editora executiva do jornal (2000-2010) e copresidente do serviço jornalístico Tutaméia (tutameia.jor.br).

“Envolta em ódios e mentiras, a eleição encontra o país à beira do abismo. Estratégico para o poder dos Estados Unidos, o Brasil está sendo golpeado. As primeiras evidências apareceram com a descoberta do pré-sal e a espionagem escancarada dos EUA. Veio a Quarta Frota, 2013. O impeachment, o processo contra Lula e sua prisão são fases do mesmo processo demolidor das instituições nacionais”.

Nenhum líder político do que sobrou no campo democrático e popular foi capaz de verbalizar de forma tão contundente a ameaça que paira nesse momento sobre 208 milhões de brasileiros.

Ainda bem que nosso belo país, que produziu esta aberração chamada Jair Bolsonaro e suas milícias, é também a nação onde vivem cidadãos como Eleonora de Lucena, que não se vendem e não se entregam.

“O antipetismo não pode servir de biombo para mergulhar o país nas trevas. Por isso, vejo com assombro intelectuais e empresários se aliarem à extrema direita, ao que há de mais abjeto. Perderam a razão? Pensam que a vida seguirá da mesma forma no dia 29 de outubro caso o pior aconteça? Esperam estar livres da onda destrutiva que tomará conta do país? Imaginam que essa vaga será contida pelas instituições _ que estão esfarrapadas?”.

Este texto deveria ser reproduzido pelos democratas ainda em atividade em todas as redes sociais, ampliado e afixado nas escolas, nas fábricas, nas igrejas, estações de metrô e ônibus, em todo lugar, guardado no bolso para mostrar a quem ainda não entendeu o que está em jogo nesse domingo.

É um verdadeiro libelo pela liberdade, pela democracia, pela soberania nacional e pela dignidade individual, um SOS quase desesperado para impedir a destruição do nosso futuro e garantir a sobrevivência dos nossos filhos e netos.

Mais que um ato de coragem extrema, as palavras de Eleonora de Lucena são grito de alerta de uma cidadã consciente do seu papel de porta-voz de uma sociedade silenciada e bestificada, de um lado, e ensandecida de ódio e intolerância, de outro, prestes a perder sua liberdade. Eleonora botou o dedo na ferida:

“Os arrivistas do mercado financeiro festejam uma futura orgia com os fundos públicos. Para eles, pouco importam o país e o seu povo. Têm a ilusão de que seus lucros estarão assegurados com Bolsonaro. Eles e ele são a verdadeira escória de nossos dias”.

Conheço muitos assim, mas já desisti de tentar convencê-los do suicídio coletivo que estão cometendo.

“A eles se submete a mídia brasileira, infelizmente. Aturdida pelo terremoto que os grandes cartéis norte-americanos promovem no seu mercado, embarcou numa cruzada antibrasileira e antipopular. Perdeu mercado, credibilidade, relevância. Neste momento, acovardada, alega isenção para esconder seu apoio envergonhado ao terror que se avizinha”.

Só não vou desistir de escrever aqui neste blog independente para tentar convencer alguns dos 17% dos eleitores indecisos que ainda é tempo de cada um cumprir seu papel em defesa da cidadania ameaçada. Votar branco ou nulo é uma covardia.

Sei que é difícil virar esse jogo, mas estarei aqui até o fechamento das urnas fazendo a única coisa que aprendi na vida: contar o que está acontecendo e falar o que eu penso.

Como escreveu Eleonora no final do seu artigo, “não adianta pedir desculpas 50 anos depois”. Até porque, não estaremos mais aqui.

Leiam na íntegra o artigo da Folha, divulguem, guardem.

Jornalista Eleonora de Lucena, muito obrigado. Você me representa. Tenho muito orgulho de ter trabalhado com você na mesma redação, no início dos anos 2000.

Um beijo e um forte abraço.

Vida que segue.

É repórter desde 1964

Fonte: https://www.balaiodokotscho.com.br