O PT e as esquerdas precisam mudar

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Aldo Fornazieri

É certo que o PT não saiu destruído das eleições, mas a derrota para Bolsonaro é grave e pode abrir caminho para o estabelecimento de uma longa hegemonia de direita no Brasil. O PT vem experimentado uma lenta perda do número nacional de votos e as suas bancadas, na Câmara, vêm sendo sucessivamente reduzidas desde 2006. Nesta eleição houve perdas também no número de senadores. Estes são sintomas e sinais de que o partido vem sofrendo uma erosão constante e que poderá se acentuar na medida em que o seu principal líder – Lula – que sempre foi maior do que o próprio partido, vai sendo posto à margem de uma atividade política livre, aberta e direta. Não houve uma tentativa séria para reconhecer e reparar os erros que se sucederam. Além disso, se observa um claro envelhecimento do partido e sua incapacidade de se renovar, de se abrir para novos movimentos sociais e de incorporar a juventude. Em vários estados, o partido se tornou oco por dentro, sem vida interna significativa. Dominado por uma burocracia ineficiente, que serve uma aristocracia de dirigentes ciosos de seu poder, mas igualmente imobilistas.

É fato indesmentível que o PT vem perdendo as ruas desde junho 2013, atuando numa posição defensiva. As eleições de 2014 só foram vencidas graças a um esforço extraordinário de setores da sociedade civil e graças ao caráter deletério da personalidade do concorrente. O defensivismo do partido vem se aprofundando desde o início de 2015, quando se desencadeou o processo do impeachment que resultou no golpe contra Dilma. Aquele processo levou a uma erosão significativa, tanto da base social quanto do apoio parlamentar do partido. O movimento sindical vinculado ao petismo também entrou numa rota defensivista da qual não conseguem sair, acomodado às benesses dos diretores, que agora implodiram com as reformas trabalhistas.

Se o defensivismo político ficou mais evidente desde 2013, o defensivismo moral é mais antigo: encubou-se no processo do mensalão e, de lá para cá, ao menos até 2016, só se aprofundou. Uma força política que opera na defensiva política e moral por muito tempo, mesmo que tenha profundo enraizamento social, tende a enfraquecer-se de forma irremediável. As últimas eleições mostraram que o antipetismo continua forte e que o partido não apresentou uma saída para este problema. Não serão apelos por piedade aos inimigos que irão resolver este problema, mas com uma estratégia clara para enfrentá-lo e uma direção capaz, competente, corajosa e virtuosa.

As direções do PT – a atual e a anterior – mostraram-se incapazes de reagir ao defensivismo e à perda das ruas. Esses dirigentes se esmeraram na produção de fumaça retórica para impressionar a militância, mas foram passivos no combate efetivo. A maior parte dos deputados e senadores do partido também fraquejou no enfrentamento. Não ocorreram mobilizações significativas nem durante o processo do impeachment, nem na consumação do golpe, nem contra Temer, nem contra as reformas trabalhistas e da previdência e menos ainda no processo de condenação de Lula, de sua prisão e de sua exclusão do processo eleitoral. O resultado brutal está aí: Lula e outros dirigentes presos e derrota nas eleições para a extrema-direita.

O imobilismo do PT sob as últimas direções vem sendo mortal para o partido: não se produzem novas lideranças e não se agrega força social sem mobilização e sem organização. O partido perdeu as periferias das grandes cidades e se enfraqueceu no centro-sul do país. Em consequência disso, Bolsonaro conseguiu avançar sobre parcelas importantes de votos lulistas. As mobilizações da direita, desde 2013, tanto nas ruas quanto nas redes sociais, produziram novas lideranças, dentre elas algumas campeãs de votos para o legislativo. O resultado foi a alavancagem do PSL, mas alguns líderes emergentes de direita se elegeram também por outras legendas. Já o PT mais reelegeu deputados do que abriu espaço para novas e jovens lideranças.

A vitória de Bolsonaro e a prisão de Lula marcam o fim de uma fase e o início de uma nova na política brasileira. Os partidos de esquerda e progressistas não podem considerar que há uma continuidade da normalidade política. Todos eles deveriam convocar congressos partidários, redefinir seus programas, suas estruturas organizativas, suas práticas, suas políticas de comunicação com a sociedade, suas estratégias e escolher novas direções. Direções fortes, competentes, social e politicamente reconhecidas, capazes de angariar respeito, reputação e organicidade aos partidos. Direções com capacidade de articulação e interlocução interna e internacional.

No caso do PT as necessidades de mudanças são evidentes. Fernando Haddad emergiu como a maior liderança nacional do partido. O PT do Nordeste, pelo número de governadores e de deputados eleitos, é o principal baluarte do partido. O PT precisa aproveitar este momento afirmando mudanças que reflitam esta nova realidade interna e consonância com a realidade externa ao partido, com a nova realidade da política nacional.

Se o PT for um partido prudente elevará Fernando Haddad e Jacques Wagner à condição dos dois maiores líderes da legenda, ocupando os dois cargos mais importantes na hierarquia do partido. A intensificação e o agravamento da luta política no próximo período requer que os partidos sejam comandados por lideres fortes e reconhecidos. Partidos comandados por lideranças fracas tenderão a se enfraquecer. Tal como o PT deveria elevar Haddad à condição de presidente (não o Haddad o primeiro turno, mas o do segundo turno, mais enérgico e com mais autoridade), o PSol deveria elevar Guilherme Boulos, o PCdoB Manuela D’Avila, e o PDT Ciro Gomes para as respectivas presidências dos partidos. Este é um requisito para uma oposição forte e para o fortalecimento da própria oposição.

Se isto não for feito, o tempo será duro e implacável com as esquerdas e com os progressistas. Eles não terão percebido a excepcionalidade do momento em que estamos vivendo. Não terão percebido o agravamento do sentido trágico do nosso país e de seu povo. Não terão percebido as mudanças urgentes que são exigidas dos próprios partidos oposicionistas. Não terão atentado para as duras a réplicas da realidade e para a gravidade das advertências que essa realidade emite. Na sua soberba, no seu comodismo, no seu imobilismo, serão condenados pela verdade do tempo de do desengano por não fazerem o que precisa ser feito.

Cientista político e professor da Fundação Escola de Sociologia e Política (FESPSP)
Fonte: https://www.brasil247.com