‘O presidente está sendo mal interpretado’, diz Mourão sobre fala de Bolsonaro

Foto: Reprodução

O vice-presidente Hamilton Mourão afirmou que o presidente Jair Bolsonaro foi “mal interpretado” ao dizer que democracia e liberdade só existem quando as Forças Armadas assim o querem. Segundo Mourão, a frase não tem tom ameaçador, como foi visto por alguns, e, sim, faz referência ao caso de países como a Venezuela.

Ao chegar ao Planalto após o almoço, Mourão falou, bem-humorado, que já sabia o que os jornalistas queriam perguntar e tratou logo de tentar esclarecer a nova polêmica. “Eu já sei qual é o assunto e vou dizer muito claramente o que o presidente quis dizer. Ele está sendo mal interpretado. O presidente falou que onde as Forças Armadas não estão comprometidas com democracia e liberdade, esses valores morrem. É o que acontece na Venezuela. Lá, infelizmente as Forças Armadas venezuelanas rasgaram isso aí”, disse Mourão a jornalistas.

Para o vice, foi “exatamente isso que o presidente quis dizer”. Questionado se concorda com a afirmação de Bolsonaro, Mourão respondeu que, “se as Forças Armadas não são comprometidas com democracia e liberdade, elas não subsistem”. “Está aí a Venezuela para mostrar”, reforçou.

Ao ser indagado sobre as críticas que têm recebido de um dos gurus do governo, o filósofo Olavo de Carvalho, Mourão desconversou e mandou um “beijinho”.

O vice-presidente também evitou comentar o vídeo compartilhado pelo presidente Jair Bolsonaro com cenas obscenas que associou aos blocos de carnaval. Ontem, o Planalto soltou uma nota para dizer que o presidente não quis criticar o carnaval de forma genérica. “Sobre isso eu não vou comentar”, afirmou o vice.

Fonte: Jornal do Brasil

Democracia de Bolsonaro é isenta de democratas

Nesta quinta-feira pós-Carnaval, 07/03, Jair Bolsonaro discursou para uma plateia de militares no Rio de Janeiro. A certa altura, insinuou que a democracia brasileira só existe porque as Forças Armadas consentem. Disse que governará “ao lado das pessoas de bem do nosso Brasil, daqueles que amam a pátria, daqueles que respeitam a família, daqueles que querem aproximação com países que têm ideologia semelhante à nossa, daqueles que amam a democracia.” E sapecou: “Isso, democracia e liberdade, só existe quando a sua respectiva Força Armada assim o quer.” Houve um tempo em que a “democracia” brasileira levava aspas. Nessa época, havia três poderes: Exército, Marinha e Aeronáutica. Após a redemocratização, quando o voto tirou as aspas da democracia, passaram a existir quatro poderes: o Executivo, o Legislativo, o Judiciário e o Dinheiro da corrupção, que antes era acobertado pela censura. Sob Bolsonaro, o sistema político brasileiro atingiu, finalmente, a perfeição. Virou uma democracia cuja Presidência está 100% isenta de democrata.

A conjuntura está crivada de ironias. Numa cruzada solitária, o capitão formou com o general Hamilton Mourão uma chapa puro-sangue militar. Cavalgando sobre os escombros de um sistema político apodrecido, prevaleceu sobre o petismo no segundo turno. De repente, informa aos seus 57 milhões de eleitores que o voto deles não passa de uma concessão dos militares. Para usar uma expressão que caiu nas graças do presidente, é como se Bolsonaro despejasse um “golden shower” sobre as urnas que o elegeram.

Por sorte, a mesma democracia que tolera um presidente que faz aliança preferencial com a tolice permite que os eleitores exerçam a cada quatro anos, com irrestrita liberdade, o inalienável direito de fazer besteiras por conta própria. Com a ajuda dos militares, que têm direito a voto. A despeito da possibilidade de alternância no poder, um jovem que ouve Bolsonaro discursando deve se perguntar: “Será que democracia é isso mesmo?”

Fonte: Josias de Souza, jornalista no Blog do Josias

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *