No Acre, cinco cidades não possuem representatividade feminina nas câmaras municipais

Na cidade de Brasileia, Câmara Municipal é composta apenas por homens – Foto: Divulgação/Asscom Câmara de Brasileia

As mulheres têm 13% de representatividade dentro das câmaras municipais das 22 cidades acreanas. Na data em que se comemora o Dia Internacional da Mulher, o G1 fez um levantamento no parlamento municipal para mostrar a participação feminina nas cadeiras do legislativo. Os dados levam em consideração a última eleição municipal em 2016.

O levantamento mostra que dos 229 vereadores eleitos no último pleito, apenas 30 são mulheres. Das 22 cidades, cinco não possuem representatividade feminina nessas câmaras municipais. São elas: Brasileia e Xapuri, no Alto Acre; Rodrigues Alves e Marechal Thaumaturgo, no Vale do Juruá e Santa Rosa do Purus, na regional Purus.

Em 2016, 2.310 registraram candidatura em todo o estado e, desse total, apenas 32% eram mulheres. Em pelo menos oito cidades, as cadeiras são ocupadas apenas por uma mulher.

Desde 1997, a lei eleitoral brasileira exige que os partidos e as coligações respeitem a cota mínima de 30% de mulheres na lista de candidatos para a Câmara dos Deputados, a Câmara Legislativa, as Assembleias Legislativas e as Câmaras municipais.

‘É preciso distinguir’

O cientista político Israel Souza explica que as mulheres têm se tornado mais atuantes na política desde o final do século 19 e início do século 20. Ele destaca ainda que a lei, aprovada há mais de 20 anos, ajuda nessa inserção da mulher no meio político, mas também guarda algumas armadilhas.

“Isso é resultado de uma luta histórica que a mulher vem travando ao longo das décadas por mais participação. Mas, a questão feminina tem um certo apelo político e isso faz com que alguns candidatos homens, inclusive, procurem vices femininas a fim de sinalizar para o eleitorado feminino um certo compromisso com as demandas voltadas para as mulheres. Mas, é preciso distinguir o que significa uma participação ativa e uma participação passiva”, destaca.

Ele relembra de alguns casos onde mulheres são usadas como laranjas em campanhas apenas para cumprir a cota determinada pela Justiça.

“Convém dizer que a mulher vem sim avançando em sua demanda e vem atuando de maneira efetiva, mas é preciso considerar também esse tipo de participação, que atende passivamente o chamado dos partidos sem que isso represente uma luta efetiva. Trata-se de uma determinada cilada. As mulheres precisam estar muito atentas para não corroborar com essa tentativa de desqualificação e de utilização do apelo feminino”, enfatiza.

Prefeitas mulheres

Em 2016, duas mulheres foram escolhidas para estar à frente de cidades acreanas. Fernanda Hassem (PT) foi eleita com 53,14%, 6.819 votos válidos em Brasileia. Marilete Vitorino (PSD) também foi vencedora, com 8.589 votos, 47,98%, em Tarauacá. Isso, quando houve 13 candidatas ao cargo de chefe do executivo municipal nas eleições.

Neste ano, 547.680 eleitores estavam aptos a votar, mas 38.275 não compareceram às urnas. No perfil divulgado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mais de 50% desse eleitorado era feminino, com 282.271 votos. Já os homens eram 48,5% do eleitorado, um total de 265.405.

No ano passado, mais uma mulher ficou a frente da administração pública municipal. Dessa vez, Socorro Neri assumiu a maior cidade do estado, Rio Branco, após Marcus Alexandre renunciar ao cargo de prefeito para concorrer ao governo do estado, sendo derrotado em outubro pelo atual governador do estado, Gladson Cameli.

Então, o estado passou a três mulheres prefeitas em diferentes cidades.

‘Machismo latente’, diz prefeita

Há mais de 3 anos como prefeita de Brasileia, Fernanda Hassem diz que ainda enfrenta preconceito no meio. Na cidade em que ela coordena os trabalhos da administração pública, não há mulheres na Câmara de Vereadores.

Ela chegou a ser vereadora antes de assumir a prefeitura e enfrentou uma polêmica onde foi apontada como ter um caso extraconjugal e teve que recorrer à Justiça. Ela revela que já sofreu diversos tipos de agressões e injúrias, mas que precisou se impor para ter destaque na política.

“A gente releva porque faz parte de um grupo pequeno e, da maior parte das pessoas, ainda recebo muito carinho e respeito e isso me motiva. E me motiva até dentro desse contraditório dos ataques, porque isso faz com que eu tenha mais motivação e me dedique mais. O lugar da mulher é onde ela quiser e a gente tem competência do mesmo jeito que um homem pode ter”, assegura.

Como mulher, ela tem focado na rede de saúde pública do município, que é responsável pela atenção básica. Fernanda conta que tem apostado em capacitação de servidores e tenta levar exames de alta complexidade para a rede pública atender essa mulher da melhor forma, inclusive, as que moram na zona rural e locais de difícil acesso.

“Trabalhamos de muita forma e sempre enfatizando também o empoderamento. Metade da nossa equipe é de mulheres. Sobretudo na saúde, por isso, no próximo mês, vamos fazer desde a endoscopia até exames mais complexos pela rede municipal. Porque a gente trabalha tanto que não tem tempo de se cuidar e é um desafio muito grande e mais ainda fazer com que a mulher abrace a dor da outra”, explica.

A prefeita diz ainda que tenta usar seu mandato para que outras mulheres se espelhem e se envolvam mais na política. Além disso, ela acredita que essa representatividade dá vez e voz a muitas mulheres silenciados por diversos fatores.

“O machismo ainda é muito latente na comunidade. Nunca vi nenhum prefeito ser xingado com acusações pessoais, mas vejo muito disso contra nós prefeitas. Nos chamam de vários adjetivos pejorativos. Eu precisei me impor e esse mandato é para dar vez e voz às mulheres que não têm. Em tese, melhorou pouca coisa, mas precisamos avançar bastante. Todo homem é filho de uma mulher, então, o mínimo que a gente cobra é respeito. A dor tem que sentir quando é do outro também”, finaliza.

Portal G1/AC

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