Mídia corporativa tem a paternidade e a maternidade de Bolsonaro

Mario Vitor Santos

O inacreditável aconteceu e o país elegeu um presidente de extrema-direita, defensor da ditadura militar de 1964 e de seu regime de torturas. Se não se dissipar antes de primeiro de janeiro, o twister bolsonariano deve atingir o continente trazendo para o país a intensidade de um dos regimes que se anuncia dos mais infames.

Se essa realidade insiste em surpreender, é óbvio que um evento como esse não é obra do acaso. Colaboraram um conjunto de ações e conjunturas. Há, porém, uma singularidade, um ponto de partida institucional frequentemente omitido em sua relevância. A vitória da extrema-direita deve-se, acima de qualquer outra influência, a um trabalho sistemático, cotidiano, um rebento do ventre da mídia corporativa brasileira.

Foi ela a iniciadora, a solitária da primeira hora, a única grande instituição republicana a desde o começo trabalhar com convicção e disciplina, a despeito dos imensos riscos e adversidades, na criação e promoção direta ou indireta dos valores, fatos, factoides e disposições mentais agora vitoriosos com Bolsonaro.

Foi ela que, paulatina e pacientemente, com avanços desiguais e recuos estratégicos, ocupou os espaços mentais e sociais, confiou na intuição de seu ofício e desafiou a descrença. Seu desprendimento abalou a inércia dos outros atores, quebrando as resistências dos que duvidavam, encorajando um agente, reanimando outro.

O empacotamento publicitário de instâncias investigativas e punitivas em “mensalão” e “Lava Jato”, dentre inúmeras outras “operações”, favoreceu a montante da campanha geral. Nesse contexto, Bolsonaro surge, portanto, não como um franco atirador mas como o que é: a resultante lógica do trabalho subjetivo realizado pela mídia corporativa brasileira.

A opção por uma candidatura de extrema-direita, a repulsa ao sistema de direitos republicanos e o derrame de mensagens falsas (fake news) financiadas ilegalmente via caixa dois no WhatsApp não são o produto de falta da informação correta mediada pelos veículos corporativos que adviria do domínio das redes sociais e ferramentas correlatas. São, inversamente, a consequência e o resultado lógico de anos de difusão sistemática de conteúdo tóxico para semear o descrédito num partido, depois nos partidos e na própria democracia.

Na verdade, as redes sociais e os grupos de WhatsApp se alimentam e reproduzem conteúdo inflamatório em harmonia com a corrosão diuturna realizada pela mídia corporativa no mundo todo contra líderes de centro-esquerda moderados, como Lula e Dilma.

Em sua campanha contra as gestões petistas coube à mídia enfrentar custos políticos e comerciais, num ambiente de perda de audiência. Pioneiros da jornada, membros antes orgulhosos abandonaram o barco na fase agora mais radical. Outros começaram a vacilar. Iniciadores autênticos da ciranda conservadora foram ficando pelo caminho, em dúvida sobre a conveniência do discurso que lhes deu razão de viver. Céleres, agora empenham-se em maquiar as biografias, eles antes tão metódicos em deformar a de outrem.

A avalanche finalmente desencadeada arrastou consigo expoentes eleitorais e partidos inteiros, deixando um rastro inútil de mensagens e formas de agir mais palatáveis ao teatro político civilizado.

Os danos colaterais voltam-se agora explicitamente contra os próprios veículos e o círculo se fecha. A tarefa foi tão bem-sucedida que só se completará num êxtase punitivo e purificador, num sacrifício ritual que deve incinerar o próprio regime da Nova República.

Nesse momento de transe para a turba será sempre necessário dar a Cesar o que é de Cesar: lembrar que antes dos juristas, dos empresários, dos economistas, dos banqueiros, dos políticos, dos partidos e até mesmo dos militares aderirem ao processo de normalização do inconcebível, um setor da elite investia solitário, disciplinado, militante, confiante na construção das peças da narrativa que trouxe o país a este desfecho.

Os meios de comunicação repetiram-se e revezaram-se com denodo na atribuição contínua ao PT e seus governos de incompetência, corrupção, aparelhamento, traição ao país, desregramento moral e até, ou antes, de eliminação de correligionários e adversários. Essa ciranda envolveu a ação de todos grandes veículos sem exceção e os jornalistas por meio deles coligados. Refiro-me em especial àqueles profissionais que em círculos comunicantes com diversos graus de articulação entre si, determinam rumos político-editoriais no comando desses veículos.

Os responsáveis por vigiar a correção, o equilíbrio, o pluralismo e o tom das informações transmitidas ao público transformaram-se nos agentes do envenenamento da opinião. São eles, muitas vezes, integrantes de estruturas corporativas informais nebulosas, de hierarquias e agendas paralelas e a serviço de propósitos políticos. São os mesmos que na reta decisiva do pleito apressaram-se em proibir o uso da expressão “extrema-direita” para qualificar o candidato Jair Bolsonaro sob argumentos de natureza técnica – um gesto de cunho eleitoral equivalente ao repetido em escala maior pelo juiz Sérgio Moro, que, enquanto conversava sobre sua nomeação ao ministério da Justiça do governo Bolsonaro, liberava, na véspera do segundo turno, delação para prejudicar o candidato do PT.

É jornalista. Foi ombudsman da Folha e do portal iG, secretário de Redação e diretor da Sucursal de Brasília da Folha.

Fonte: https://www.brasil247.com