Escassas soluções em meio a incontáveis tentativas

Por Valdeci Duarte(*) que enfatiza: qualquer similaridade entre fatos reais e os relatos deste conto não passam de simples coincidências.

Eu não sabia se algum dia seria titular do Tentativas Futebol Clube ou mesmo se chegaria a ter o orgulho de chamá-lo de meu time de futebol, mas de uma coisa eu passei a ter certeza: eu vivi o verdadeiro preconceito por ser “um perna de pau” brigando por uma vaga no time das estrelas.

No tempo que eu vivia choramingando para entrar no time, meu pai não estava por perto. O nome dele sequer estava grafado nos meus documentos oficiais. Hoje tenho minhas dúvidas se esse não era o motivo de não ser aceito no time.

O tempo passou voando. Tive a oportunidade de ser adotado pelo meu pai biológico. Ele aceitou ir comigo em um cartório de registro de pessoas naturais, firmar as suas digitais para dar fé pública de que era filho da juventude dele. Reconhecimento semelhante não veio por parte do clube que ajudei a fundar. Aquele foi um ato de nobreza da parte do meu pai e um ato de pouco mérito da parte do Tentativas.

A última notícia que tive do time dos estrelados foi sobre a criação de um campeonato interestelar com envolvimento de duas brilhantes equipes. Essa investida foi fruto de uma das mentes ativas do clube que com toda a sua visível influência, conseguiu convencer a união das estrelas para dividir o Tentativas em duas equipes: uma que passou a defender a cor vermelha e a outra, a cor rosa.

Toda essa trama passou pelo aval dos donos da Fábrica e também da chefia do clube, do Senhor das Estrelas, do Presidente de Honra, enfim, dos maiorais da Associação dos Estrelados Unidos. Nenhuma dessas autoridades fez vista grossa para a iniciativa. Eles queriam mesmo era ver o triunfo do clube que estava sempre conquistando um lugar no samba das goleadas.

Obviamente que todos os membros do Tentativas concordaram em somar recursos para a aquisição de uma taça em forma de caneco e que ano após ano o vencedor ficava com a posse do prêmio até a próxima disputa. A regra do campeonato era simples: quem vencia o único jogo anual passava o ano seguinte com a posse do caneco, como se dono fosse da relíquia.

Passaram anos e anos nesse embate. O time que defendia a cor rosa, passou longas temporadas sem vencer o campeonato e ainda tinha que suportar a mangofa dos vermelhinhos que apesar de perderem o rumo com as eleições gerais, não perdiam a posse do ouro.

Finalmente, o Tentativas Futebol Clube, cansado de passar o ano inteiro sambando nas goleadas, passou a mostrar resultados, após a divisão do clube em duas equipes. Era certo que nada mais fazia sentido para o estrelado, além do alvo de defender as duas únicas cores do universo. Nisso, cada estrela dava o seu melhor, defendendo com unhas e dentes a sua cor. A essa altura do campeonato o seu mentor pensava: “quando jogamos esse campeonato, formamos o metro quadrado mais brilhante do universo… Somos mesmo uma constelação!”

O vermelho viveu a sua era de conquistas, até que em uma das temporadas cochilou e provou o gostinho de ser vice-campeão do campeonato de dois times de uma equipe só. Finalmente o time rosa lambiscou o gosto da vitória e de passar uma temporada de posse da honra dos invencíveis vermelhos.

Essa primeira derrota dos vermelhos os deixou mais encarnados. Alguns aceitaram o deslize, mas o maioral dos maiorais ficou irritado ao extremo com as estrelas rosadas. O fato era simples e o problema não eram as estrelas. O céu era quem estava ficando cada dia menor. O fato era certo: as estrelas rosadas de tanto perder conseguiram aproveitar o relaxamento dos vermelhos e meteram as bolas sem dó nem piedade na rede adversária.

Essa história começou como um desabafo do principal briguento do time. Ele queria ter o prazer de levantar um troféu a qualquer custo. O que começou como um joguinho entre a própria equipe virou uma tradição acirrada entre os perdedores habituais do time. Todos os anos era esperada a tradicional disputa entre as duas equipes, os vermelhinhos de um lado e os rosinhas do outro, ambos compostos por atletas da tentadora equipe que todas as vezes jogava como nunca e perdia como sempre.

(*) Valdeci Duarte é autor acreano e admirador do Tentativas Futebol Clube, a maior equipe sambadora nas goleadas.