Drag queen acreana comemora representatividade de série que rendeu críticas a Alan Rick

Por Leandro Chaves – Chega nesta sexta-feira, 9, à Netflix, a primeira temporada da série animada “Super Drags”. A produção nacional traz a bem-humorada história de três amigos que trabalham em uma loja de departamentos e, nas horas vagas, se transformam em super-heroínas drag queens com poderes especiais para salvar a comunidade LGBT da discriminação e outras ameaças.

Seriado estreia nesta sexta-feira, 9, na Netflix – Foto: Divulgação

Com apenas cinco episódios, o seriado é a primeira animação brasileira produzida pela Netflix e conta com vozes de ícones da cultura drag, como Pabllo Vittar, na dublagem em português, e as estrelas do reality show RuPaul’s Drag Race, Trixie Mattel e Shangela, que emprestam suas vozes para a versão em inglês.

O artista e jornalista acreano Igor Martins, que interpreta a drag Ágata Power, aguarda com ansiedade a estreia do seriado. Ele acredita que produções como essa são importantes para a representatividade da arte drag e para desmistificar estereótipos.

“Ainda existe muito preconceito e desinformação sobre as drags. As pessoas têm muitos tabus e entraves e acham que queremos virar mulher ou que isso é uma coisa promíscua, quando na verdade drag e sexualidade não necessariamente estão ligadas. É mais uma representação, e as pessoas muitas vezes não entendem isso. Falta informação e representatividade”.

Interpretada pelo jornalista Igor Martins, Ágata Power é a drag mais influente do Acre – Fotos: Arquivo Pessoal

Igor é espectador da arte drag desde muito tempo e há três anos passou a se montar, sendo, talvez, a maior referência dessa arte no Acre. Sua personagem se apresenta em festas em casas noturnas da cidade, onde também toca como DJ.

O perfil do jornalista no Instagram (igorlmartins) já tem mais de 19 mil seguidores. Lá, ele dá dicas de maquiagens drags e mostra os bastidores de sua montagem. Ágata Power, um trocadilho com o nome da música I’ve Got The Power, também está no Instagram com o usuário ht.power.

As drag queens ganharam maior visibilidade no Brasil com o sucesso de RuPaul’s Drag Race. Elas são personagens femininas criadas por artistas, geralmente homens, que se vestem de forma extravagante, com muito brilho e maquiagem, para performances de gêneros artísticos variados, como música, dança e teatro.

Após o show, os artistas se “desmontam” e voltam à sua aparência de costume – por isso não devem ser confundidos com travestis e transexuais. Homens heterossexuais e mulheres também podem ser drag queens.

Polêmica

Antes mesmo da estreia, “Super Drags” já causou polêmica após o deputado federal acreano Alan Rick (DEM) publicar em suas redes uma nota de repúdio à animação, indicada para maiores de 16 anos. No documento, ele expressa contrariedade à disponibilização e classificação do desenho e pede ao Ministério da Justiça que a série seja censurada para menores de 18 anos.

Alan Rick é deputado federal pelo Acre

“Estamos presenciando mais um ataque às nossas crianças: o lançamento de um desenho animado adulto chamado ‘Super Drags’”, escreve o parlamentar, ao apresentar a nota. “Repudiamos a animação devido ao fato de que a mesma retrata assuntos de cunho moral e atinentes à sexualidade de forma obscena e não educativa”, diz o documento.

Nas redes sociais, o deputado, que integra a Frente Parlamentar em Defesa da Vida e da Família, foi alvo de críticas pela maior parte dos comentaristas. “Como o senhor mesmo afirmou, é um desenho animado para adultos, logo não assista nem mostre aos seus filhos. Deixe para as pessoas de mente aberta e adultas assistirem”, escreveu, da Bahia, um usuário do Facebook.

“Agradeço ao deputado, não conhecia o desenho, mas agora vou assistir. Valeu pela divulgação!”, ironizou um fluminense. “É pra esse tipo de gente que a gente paga 33 mil reais de salário?”, questionou um terceiro comentarista.

A postagem no Facebook já tem mais de 12 mil comentários. Alan Rick respondeu muitos deles. “Vc deveria se informar melhor e deixar de ser massa de manobra da esquerdalha”, retrucou, ao ser chamado de cara de pau por um acreano. “Já está provado que qualquer criança que domina a internet melhor que adultos, pode abrir uma conta Netflix e pagar o boleto com o dinheiro da mesada”, justificou o deputado em outro comentário.

A repercussão da nota de repúdio rendeu até mesmo um conteúdo da Netflix nas redes sociais explicando aos pais como ativar o controle para que crianças não assistam produções adultas. No serviço, há uma seção voltada apenas para o público infanto-juvenil, com possibilidade de inserir senha para evitar o acesso às demais áreas.

Animações voltadas para maiores de 16 anos são comuns na Netflix e até mesmo em canais de TV pagos e abertos. Séries como Simpsons, South Park, BoJack Horseman, Rick e Morty, Castlevania e Death Note são exemplos produções maduras que caíram no gosto dos brasileiros.

“Eu acho desnecessária essa tentativa de censura, pois já existe a classificação etária mínima e o controle parental, onde os pais podem vetar o conteúdo”, avaliou a drag queen acreana Ágata Power.

“Outros personagens de desenhos muito mais antigos já se vestiram de mulher e não sofreram tentativa de censura. Um exemplo é o Pica-Pau, que se montou diversas vezes para conseguir comida ou seduzir o Zeca Urubu e o Leôncio. Acredito que essa polêmica seja só pelo momento político que o Brasil vive hoje”, finalizou a artista.