“Dr. Baba”, um exemplo de vida

História da formação de “Dr. Baba” serviu de inspiração para pelo menos outros três médicos com sua mesma origem e características – Fotos: Reprodução

A dor pela morte de um profissional que inspirou e ajudou a combater o sofrimento em comunidades isoladas do interior do Acre

O tiro de escopeta disparado à queima roupa contra o peito do médico Rosaldo Aguiar, no início da noite do último sábado, em Feijó, interior do Acre, não matou apenas um profissional de saúde humanitário e dedicado. Pôs fim à vida e à história de um homem que, por onde passou, não só recebeu como procurou espalhar amor e solidariedade, principalmente entre as pessoas mais pobres da região em que nasceu e viveu por 49 anos, no Alto Tarauacá e Envira, onde ficam os municípios de Tarauacá e Feijó.

Nascido em Tarauacá, ele foi morto no município vizinho, na casa em que vivia, localizada num sítio no qual fizera gravar o nome do lugar com os mesmos caracteres do letreiro famoso internacionalmente que informa a localização dos Estúdios Holywood, em Los Angeles (EUA), já que, ao lado da medicina, o cinema também era sua grande paixão. A propósito, a história de vida de “Baba”, apelido de infância cuja origem ninguém quis relatar, que também poderia se chamar “Dr. Solidariedade”, bem que poderia render um bom filme, com um roteiro que seria mais ou menos o que se segue.

O mais novo de uma família de sete irmãos, cujos pais, dona Edite Aguiar e João Ferreira, ambos anciãos e que parecem ter ficado ainda mais velhos desde que tiveram que enterrar o filho amado, pobres de saberes e de posses – mas ricos em dignidade, o ensinaram o valor do trabalho e do respeito ao próximo. Por volta do ano de 1987, ainda muito jovem, “numa época em que ainda se davam emprego público”, na definição de um de seus amigos de adolescência e mais tarde colega de profissão, o médico e deputado estadual Jenilson Leite (PC do B), “Baba” ganha do então governador Flaviano Melo o direito a um emprego de serviço geral no acanhado hospital de Tarauacá, onde a carência de médicos, enfermeiros, equipamentos e remédios era a principal característica daqueles tempos sombrios. O ambiente de dificuldades virou uma espécie de território livre e habitat natural para um jovem cuja maior marca era a dedicação ao que fazia e atenção para com o próximo, principalmente àqueles mais necessitados.

“Foi assim que ele aprendeu a fazer suturas, pequenos curativos, aplicar injeção e logo deixou os serviços gerais para ajudar como técnico de enfermagem”, conta o amigo Jenilson Leite, cuja história de vida também poderia render um filme parecido. “Foi a partir daí que ele tomou gosto pela medicina e passou a manifestar o desejo de sair de Tarauacá para estudar”, conta o amigo, que esteve com “Baba” até o início da tarde do último dia de sua vida.

Compromissos com a família Damasceno: se formar e ficar dez anos clinicando em Tarauacá

Sair de Tarauacá, no entanto, era algo inimaginável para uma família sem posses e numerosa, como era a de “Baba”. Foi aí que surgiram as figuras do empresário Raimundinho e de sua esposa Ivete Damasceno, provavelmente as pessoas mais abastadas de Tarauacá. “Devido à carência de médicos em Tarauacá e conhecendo as pretensões dele e o interesse em estudar medicina, nós o chamamos e fizemos a proposta: pagar os estudos dele na Bolívia e, em troca, quando se formasse, ele voltaria para Tarauacá para ficar clinicando no município por no mínimo dez anos. Ele topou no ato”, conta a empresária Ivete Damasceno.

Ao retornar ao município, já formado, “Baba” procura o casal de empresários para lhes ofertar uma cópia do diploma e assumir o compromisso de cuidar dos pacientes de Tarauacá pelo período acordado, mas o acordo nem foi cumprido na integralidade. “É que na época, em Tarauacá, já havia aparecido alguns médicos, entre os quais o Dr. Jasone”, revelou Ivete.

Jenilson Leite (E), colega de profissão, amigo e confidente, foi a última pessoa a estar com “Dr. Baba” no dia de sua morte

A história da formação de “Dr. Baba” serviu de inspiração para pelo menos outros três médicos com sua mesma origem e características e que se formaram graças a ajuda de terceiros, como Max Vitorino, Sirlandia Brito e a índia Delzanir Kaxinawa, todos já prestando serviços às comunidades da região. “Eu também não posso negar que ele me inspirou. Só que eu me formei graças a uma bolsa de estudo do governo de Cuba”, conta Jenilson Leite.

O barco da solidariedade

Mas, se não permaneceu os dez anos do acordo com os Damascenos em Tarauacá, “Dr. Baba” foi muito mais longe. Começou a singrar os rios e igarapés para atender seringueiros, colonos e ribeirinhos em municípios como os de Feijó, Jordão e até mesmo de Envira, no Amazonas. Essas viagens eram longas e cansativas, geralmente em barcos desconfortáveis e sem equipamentos essenciais para o atendimento de pessoas que só iria estar diante um médico durante todas as suas vidas graças ao esforço pessoal daquele profissional de apelido estranho.

Nascido em Tarauacá, ele foi morto no município vizinho, na casa em que vivia, localizada num sítio no qual fizera gravar o nome do lugar com os mesmos caracteres do letreiro famoso dos estúdios Holywood, em Los Angeles (EUA)

Assim que começou a ganhar melhor, resolveu investir, das próprias finanças, na construção de barco-hospital, melhor equipado, inclusive com ar condicionado, e com equipamentos de última geração que permitiam a realização, nas barrancas dos rios, de exames de eletrocardiograma, de ultrassom e até a realização de algumas cirurgias. O custo do barco e dos equipamentos foi estimado em R$ 150 mil, mas a assistência médica às pessoas daqueles rincões era absolutamente gratuita. E agora, o “Dr. Baba” não estava mais só naqueles atendimentos que ele fazia durante os períodos de férias ou de folga do trabalho regular. A ele havia se juntado outro médico, o amigo Jenilson Leite, enfermeiros, técnicos de enfermagem, condutores do barco e até cozinheiros. A última dessas viagens foi feita há dois meses, na fronteira do Acre com o Amazonas, quando foram atendidas cerca de 700 pessoas em dois dias. A próxima viagem seria em janeiro de 2019, no município de Jordão, nos rios Muru e Alto Tarauacá.

Uma viagem e muitos sonhos interrompidos por aquele tiro disparado por dois celerados provavelmente acumpliciados a um terceiro bandido que contava com a confiança da vítima e que costumava frequentar sua casa

Polícia descarta crime político e afirma tese de latrocínio

Jenilson Leite, colega de profissão, amigo e confidente, foi a última pessoa a estar com “Dr. Baba” no dia de sua morte, no hospital em que dava plantão. “Fomos conversar sobre a incidência da dengue no município. Ele me pediu ajuda para trazer a demanda para o governo”, contou o médico-deputado. “Deixei-o por volta das 16 horas e segui para Tarauacá”, disse.

Assim que o amigo deixou-o no hospital, “Dr. Baba se dirigiu a sua casa, alegando que iria tomar banho. Lá já se encontrava aquele amigo de sua confiança, o qual, conforme a polícia, atraiu os assassinos. No dia seguinte ao crime, Felipe Rodrigues e Lucas de Oliveira, de 19 e 28 anos, respectivamente, foram presos como principais suspeitos da morte. A polícia diz que os suspeitos queriam roubar a arma da vítima, um revólver 38.

Na última conversa com o amigo Jenilson leite, “Dr. Baba” revelou que havia sido roubado em sua casa, dois dias antes. Os ladrões furtam uma televisão, cujo crime ele comunicou à polícia. Aliás, na mesma delegacia de polícia, o médico havia estado em setembro, durante a campanha eleitoral, registrando queixa contra o ex-vereador Mario Célio, que o teria ameaçado de morte, através de um aplicativo de telefone. “Baba” chegou a mostrar os “prints” em que o ex-vereador dizia que, caso vencesse as eleiçõe4s o atual governador eleito, ele teria que sair de Feijó.

Assim que a morte foi registrada, o ex-vereador foi intimado à delegacia pelo delegado José Obetânio. Mas, segundo a autoridade policial, o ex-vereador nada teve a ver com o crime e que a morte foi decorrente de latrocínio, quando o criminoso mata para roubar.

Tião Maia