As Esperanças do Sul para o Norte

Ayax Punu e seu macaco zogue-zogue (masoko, na língua korubo) – Foto: Sebastião Salgado Filho

Lorena de Cáritas Dantas Tuma

O debate entre norte e sul reapareceu nas últimas eleições presidenciais ressaltando o caráter de oposição, polarização dessas duas unidades que vão além da questão geográfica. Tanto é que, no Brasil, o norte está impregnado de sul; e o sul, de norte. Nessa afirmação não falamos da localização geográfica, mas do fluxo de influência que parte dos grandes centros do poder. Como exemplo, Austrália e Nova Zelândia estão no Hemisfério Sul, porém, pertencem ao Hemisfério Norte. O caso do Brasil é similar, os fluxos de influência que estão ao sul, vão em direção ao norte, pouco desenvolvido, caricaturado como morada de povos autóctones, economicamente dependente de atividades extrativistas.

Mas afinal, o que é o Sul? Segundo Edgar Morin, filósofo francês, a noção de sul é relativa e heterogênea, assim como a de norte. O Norte era também o Ocidente, oposto ao Oriente após o desuso do termo “Terceiro Mundo”, polariza com o termo Países do Sul. Ainda, segundo Morin, o Norte fala da hegemonia de pensamento, da técnica do cálculo, da racionalização, da rentabilidade e da eficiência. É verdade que existem muitos “suis” em relação a outros “nortes”, cada um com seus vícios e virtudes.

Hoje vivemos em constante crise decorrente de um sistema financeiro baseado na especulação. Crise que se inscreve em outras esferas, como a relacional, o estranhamento do outro, de dominação estabelecida com a natureza, crise das sociedades tradicionais que se diluem face à ocidentalização, da modernidade e do desenvolvimento, já que as promessas de uma vida melhor não foram alcançadas nem através da ciência, nem da técnica, tampouco do domínio da natureza.

No Acre, Sul-América, surgiram os primeiros movimentos de defesa da natureza e da floresta Amazônica, que deram luz a mártires como Chico Mendes, Wilson Pinheiro e tantos outros. Era um movimento pioneiro para a defesa de um modo de vida local, mas também de sobrevivência global.

Em vista à resistência aqui originada, compactuamos com a consideração de Morin: o Sul pode contribuir para refutar a crença de que o homem deve dominar a natureza, porque a dominação, além de ser prejudicial, macula a humanidade. Devemos resgatar as solidariedades perdidas, ao mesmo tempo, que preservar a autonomia intelectual e moral – estas heranças do Pensamento Humanista do norte, que como já mencionamos, também possui virtudes.

Saindo do quadro de oposição a uma simbiose, substituímos a certeza científica pela esperança. O sul traz a lição de fazer muito com pouco. No sul vivemos com mais intensidade os problemas que têm afetado a humanidade ao longo dos séculos: a fome, a miséria, grandes epidemias, desigualdades. Fatos que obrigam a nos reinventar constantemente. Essa capacidade de reinvenção e recriação pode ser transposta a outros lugares do planeta e servir de lição a muitos países do norte.

O Acre, como parte do sul, pode também dar sua contribuição aos problemas que afrontamos hoje, como Nação. Falo sobre a ameaça de um pensamento de extrema-direita que nega as pluralidades e o equilíbrio da natureza. A memória acreana é rica em fantasia, imaginação. Possuímos os últimos povos isolados do planeta e, quem sabe, esses remanescentes nos façam lembrar a importância de trilhar os caminhos para o desenvolvimento sustentável, não apenas do ponto de vista ambiental, mas cultural e social.

Aqui ainda encontramos povos que resistiram à ocidentalização, povos que resultaram da mescla dessas civilizações, de resistências que moldaram nosso território. Mas a riqueza acreana vai além da interação entre esses povos. Utilizando a alegoria de Edgar Morin, o Norte fala de prosa. A prosa remete à técnica e à quantificação. Mas a vida comporta prosa e poesia. Recitando Hoderlin, o homem poeticamente habita. Essa poesia que está no dia a dia, abunda no cotidiano do amazônida, no nosso folclore, nas curvas dos nossos rios. Acre quer dizer amargo, mas sob as lentes de Sebastião Salgado, de Hélio Melo e outros, aqui se revela o sal da terra.

Arquiteta e urbanista