ARA San Juan, Honduras e Brasil

Lorena de Cárita Dantas Tuma

Vivemos numa era de desinteresse e frieza evidenciada pelos conflitos contemporâneos. Como exemplo recente, a frieza de Trump frente à caravana de imigrantes descrita como bando de criminosos que planejam uma invasão. A atitude, porém, não é exclusiva dos altos escalões de poder internacional. Encontramos paralelo no nosso país, quando testemunhamos a agressão sofrida pelos venezuelanos no Brasil, na cidade fronteiriça de Pacaraima.

A indiferença deu à luz as grandes tragédias da nossa História, e poderíamos muito bem construir “uma História da indiferença”. Para o historiador britânico Ian Kershayw, o Holocausto foi idealizado pelos nazis, mas foi pavimentado pela indiferença. Talvez, sem ela, a ideologia antissemita não teria sido suficiente. Além do estímulo material, a conivência daqueles que fingiam não ver, ou que não queriam ver, foi decisiva.

Continuamos ainda não querendo ver e trilhamos um caminho perigoso. O Morro da Boa Esperança, em Niterói,  não aguentou a espera. O poder público tinha fechado os olhos às construções em área de risco, desrespeitando os planos urbanísticos e as leis ambientais. O descaso gerou o deslizamento que acometeu catorze pessoas.

Também na última semana, foi encontrado o submarino argentino ARA San Juan. Desapareceu nas águas do Atlântico há um ano, com quarenta e quatro tripulantes a bordo. Sofreu uma implosão que a todos vitimou. Assim, jaz a 800 metros de profundidade, a 600km da Patagônia. O governo argentino também não quer ver. Declara que o país não dispõe de meios para resgatar o buque. Segundo o Ministério de Defesa, o submarino já apresentava falhas – 21 anomalias em 2016.

ARA San Juan, o deslizamento em Niterói e a crise migratória manifestam-se como retratos da indiferença na América. Ela mata como matou em Auschuiwitz, e também aqui: Ninguém quer ver.

Bauman fala da perda de sensibilidade na modernidade líquida, constatando que vivemos na era da indiferença. Numa sociedade onde os laços de consumo são mais relevantes que as relações de vizinhança, tornamo-nos insensíveis ao sofrimento alheio. Relações significativas são cada vez mais difíceis de criar, condenando-nos à superficialidade do relacionamento virtual. Bauman salienta ainda, que é através do olhar do próximo que se concretiza a condição humana. Daí, intui-se que a indiferença, o medo e a intolerância, ao distanciar-nos dos seres análogos, liquefaz a nossa essência.

Se antes temíamos o castigo dos deuses, as sombras do interior da caverna, os seres míticos da floresta amazônica, hoje, tememos o que está ao lado. E esse enjeitamento acaba por despir-nos do sentimento de humanidade que nos resta – às vezes só lembrada face à finitude da morte. E a morte, a angústia de quem vive, segundo Vinícius de Moraes, quem sabe, não seja castigo, mas um resquício de lucidez destilado pelos deuses, para fazer-nos desembaraçar da indiferença e lembrar que partilhamos a mesma vulnerável condição: a condição humana!

Arquiteta e urbanista