A política é o nó cego de Bolsonaro

Andrei Meireles

O ministro extraordinário do governo de transição, Onyx Lorenzoni, ao lado do presidente eleito Jair Bolsonaro, fala à imprensa, no CCBB. Foto Valter Campanato/Agência Brasil

O time de ministros de Jair Bolsonaro está praticamente escalado. Como é praxe na formação de governos, o desenho final da equipe ficou diferente do esboço original. Mesmo assim, é um retrato que parece coerente com as poucas bandeiras defendidas na campanha eleitoral — endurecer no combate à corrupção e à violência, adoção de um modelo ultraliberal na economia e um cavalo de pau conservador nos costumes.

Surpreendeu ao quebrar paradigmas. Encarada com ceticismo, até aqui foi cumprida a promessa de que a escolha para ministérios, bancos públicos, grandes estatais — os cargos mais cobiçados da República — não seria no tradicional rateio com os partidos políticos. A delegação de poderes sem precedente com as cartas brancas aos superministros Paulo Guedes e Sérgio Moro é outro diferencial.

Há uma espinha dorsal, com forte influência militar, com o propósito de pôr um mínimo de ordem na gestão pública, anarquizada pelos feudos corporativos e os esquemas de corrupção. Há também fios soltos, que podem causar curtos circuitos, como o deslumbre na política externa.

Mas o nó cego na transição é na política. Suas linhas gerais, algo esquemáticas, estão mais ou menos definidas: convencer uma ampla maioria de deputados e senadores a aprovar as reformas econômicas, leis mais duras contra a criminalidade e alguns pontos da pauta conservadora. A promessa de campanha é fazer isso sem a cessão de nichos no governo para os políticos que fazem da atividade pública uma máquina de arrecadar dinheiro para bancar seus projetos de poder e o enriquecimento pessoal.

A turma que entende a política como negócio, apesar do recado das urnas, pode até ficar mais discreta, mas não vai largar o osso. Assim, organizar uma base parlamentar capaz de superar um barulhenta oposição e destravar o funcionamento legislativo sem pagar pedágio é um enorme desafio. Dirigentes partidários, com anos de balcão, não creem que nenhuma mudança radical no modo de negociação com os políticos seja bem sucedida.

Outro complicador é o time que, em nome de Jair Bolsonaro, está entrando em campo para negociar com os políticos. Escaladado para coordenar a equipe, o ministro Onix Lorenzoni enfrenta fogos amigos de várias procedências: os militares não consideram seu perfil adequado para a tarefa, seus colegas de parlamento avaliam que ele não tem jogo de cintura suficiente, e a nova tropa bolsonarista chega com espírito de ocupar terra arrasada.

Os barracos entre os deputados Eduardo Bolsonaro e Joice Hasselmann no grupo de WhatsApp da bancada do PSL fazem muito barulho, mas nem são o mais desgastante. O pior é a pretensão no entorno de Bolsonaro de passar a perna nas raposas que dão as cartas no Congresso. A mensagem de Eduardo Bolsonaro, endereçada a 51 colegas de partido, de que, por ordem do presidente eleito, estaria articulando na moita com líderes do Centrão para enganar Rodrigo Maia é de uma ingenuidade atroz.

O problema é que na tropa de choque de Bolsonaro todos se acham capazes de fazer boa interlocução política, inclusive alguns generais. Se ninguém puser ordem na casa, tem tudo para dar errado.

A conferir.

Jornalista

Fonte: https://osdivergentes.com.br