A Natureza do Progresso

Salto de Sete Quedas. Inundadas para a construção de Itaipu. Outro projeto do engenheiro Marcondes Ferraz, criador do projeto da Usina de Paulo Afonso, possibilitava preservar Sete Quedas. Nele a barragem seria construída acima das quedas e uma parte da água desceria por um túnel cavado dentro da rocha viva até as turbinas localizadas num “salão” subterrâneo – Foto: Reprodução

Lorena de Cáritas Dantas Tuma*

O progresso manifesta-se de várias formas e apoia-se em diversas (ir)racionalidades. Ideias que baseadas num discurso racional ganham o apoio de certos setores da sociedade. No passado, esse ideal se manifestou no projeto de “branqueamento” da população brasileira durante a Ditadura Vargas. O historiador Fábio Koiffman, em Imigrante ideal: O Ministério da Justiça e a entrada de estrangeiros no Brasil (1941-1945), relata que intelectuais brasileiros e o Presidente Vargas acreditavam que o problema do desenvolvimento brasileiro estava relacionado à má formação étnica do povo. Dessa forma, “bons imigrantes” – brancos que se integrassem à população não branca, transformariam o Brasil em uma sociedade mais desenvolvida. Os vistos eram concedidos de acordo com a origem étnica, a fim de alcançar o “aprimoramento do povo brasileiro”.

Em termos espaciais, as rodovias foram o símbolo do avanço. Whashington Luís lançou suas bases ao adotar como lema de campanha “Governar é abrir estradas”. Esse modal de transporte tem sido o principal meio de indução do desenvolvimento nacional, contrariando as peculiaridades ambientais, as dimensões do nosso país e a inviabilidade econômica da rodovia para a exportação de commodities. No plano urbano, as condutas rodoviaristas consolidaram uma sociedade automobilística insustentável e delimitaram cidades esparsas, mal servidas de transporte público, divididas entre centro, periferia e subúrbio; entres espaços de trabalho e lazer, formada de objetos aleatórios, sem alguma relação entre si. A construção de rodovias, viadutos e pontes, na lógica moderna, destruiu as relações com os rios que eram símbolos das cidades da floresta, por exemplo. A perda não é apenas simbólica, já que a exploração do transporte fluvial na Amazônia seria importante em ganhos logísticos.

Em termos arquitetônico-simbólicos, o progresso rejeitava a herança da arquitetura vernacular e tradicional. Em Manaus, o código de construção urbana proibia toda construção em palha e madeira no centro da cidade. A evolução da civilização na grande capital Amazônica não estaria expressa na construção tradicional, mas no modelo europeu, parisiense, capaz de recriar na selva, a atmosfera da belle époque vivida na Paris do século XIX. Paradoxalmente, essa mesma Paris admirada nos trópicos, era a desesperança de Baudelaire, nostálgico da Paris antes de Haussmann: “A velha Paris não é mais! (uma cidade Muda mais rápido, ai, que um coração mortal) /Paris muda! porém minha melancolia/Não!/andaimes, palácios novos, avenidas,/Blocos, para mim tudo vira alegoria,/E mais que as pedras, pesam lembranças queridas”.

Para Hugo Carneiro (1927-1930), o progresso do Acre se materializava em alvenaria, e a construção tradicional, feita em madeira, simbolizava a efemeridade e a transitoriedade. O novo padrão arquitetônico conferiria para o então governador, ares de “civilização”, rompendo com o atraso que as construções tradicionais simbolizavam. Dessa forma, tanto em Manaus quanto em Rio Branco, as construções ignoravam os trópicos e as condições climáticas a que estavam sujeitas, utilizando-se de panos de vidro e telhados de zinco.

Quando falamos em grandes obras como materialização do avanço, devemos citar a hidrelétrica de Itaipu – trata-se de um projeto emblemático, reiterado pelo sentimento de nacionalidade que emana das águas. Em termos arquitetônicos, o concreto, o aço, a força da água que a atravessa e a monumentalidade que a compõe podem ser interpretados como um trabalho brutalista, caracterizado pela valorização das técnicas construtivas e materiais utilizados. O período ditatorial foi marcado por grandes construções validadas pela propaganda do “Grande Brasil”. A usina de Itaipu é um objeto tecnológico que representou seus ideais políticos. No final do ciclo dos governos militares, o legado deixado para trás: estagnação econômica, dívida externa e pesadas consequências ambientais. Para o governo brasileiro, Itaipu personificou a transição para a modernização e o progresso. Para muitos outros, como para o poeta modernista Carlos Drummond de Andrade – em manifesto poético contra a inundação de Sete Quedas – uma transição para o infortúnio: uma ingrata intervenção de tecnocratas de um país que vai deixando de ser humano para tornar-se empresa gélida, pela mão do homem, proprietário do planeta.

A palavra progresso é slogan de governos, estampa a bandeira nacional, figura em todas as partes. É como um dogma, imperativo desejado por todos. Mas não podemos esquecer de avaliar os custos para não cairmos em grandes equívocos e descambar no retrocesso como já fizemos no passado. Levi-Strauss nos lembra que devemos considerar as condições reais de nossa experiência humana, das quais não podemos nos liberar e, ao contemplar a “irracionalidade” dos povos indígenas, expôs a pretensa racionalidade do homem branco ao enxergar “uma marca de sabedoria que os povos selvagens praticaram com espontaneidade, e contra qual a rebelião moderna é verdadeira loucura”.

Mas há de se rebelar contra os dogmas do progresso, como fizeram tantos poetas em suas épocas. Hoje, na ameaça de uma grande crise ecológica, nos cabe indagar, primeiro, o que é a natureza, e, em seguida, qual a natureza do progresso que queremos.

*Arquiteta e urbanista