A democracia precisa se proteger

Foto: Reprodução

Marcos Coimbra

Na eleição, as chamadas fake news tiveram visibilidade máxima quando não passavam de um risco. Quando se tornaram um fato, poucos as trataram com a atenção que mereciam. Agora, quando seu poder de destruição foi demonstrado, a maioria quer jogar o assunto para debaixo do tapete. Prefere fingir que não existiram.

A expressão fake news adquiriu notoriedade ao se tornar mais que um anglicismo para substituir palavras familiares. Na época de eleições, sempre houve boatos, intrigas e mentiras postas a circular por alguns candidatos contra outros.

Não é nessa acepção tradicional que a expressão foi incorporada o nosso vocabulário. Começamos a utilizá-la para designar uma coisa nova que ameaçava as eleições, com potencial tão elevado de perturbá-las que poderia até comprometer sua realização.

No Brasil, o ápice de sua importância foi prematuro e aconteceu ainda em abril, quando o inefável Luiz Fux, então presidente do Tribunal Superior Eleitoral, bravateou: “Se o resultado da eleição for fruto de uma fake news, anula a eleição”.

Disse que tomaria providências para evitá-lo. Sob sua batuta, o TSE formaria “comitês de inteligência” para acompanhar o processo eleitoral com foco na disseminação de notícias falsas. Seus integrantes viriam da Agência Brasileira de Inteligência, do Exército, Polícia Federal e Ministério Público.

Está claro que tamanho aparato não seria montado para coibir a fofocagem de sempre. O que motivava Sua Excelência era o risco de que notícias falsas fossem distribuídas em massa através da internet e das redes sociais para destruir adversários, de forma orquestrada e coordenada. Quem atacasse assim e ganhasse, poderia até vencer, mas não levaria. O bravo Fux, auxiliado por seus “comitês”, garantia que o trapaceiro seria identificado e punido.

O cerne da questão não estava, portanto, na inverdade de uma notícia a respeito de um candidato, mas em sua disseminação. Fake news não era a mesma coisa que notícia falsa, mas algo além: a mentira contra um candidato distribuída por outro em larga escala pela internet. Fundamentalmente, através do uso do chamado “impulsionamento”, dirigindo as falsidades aos segmentos mais influenciáveis do eleitorado.

Fux tinha motivos para preocupar-se. Um mês antes, em março, estourou o escândalo envolvendo a eleição de Donald Trump, Steve Bannon, seu estrategista, a empresa de consultoria Cambridge Analytica e o Facebook. Informações a respeito do interesse de Bannon, fortemente ligado ao bolsonarismo, e da consultoria no Brasil circulavam, em função da admissão de seu presidente de que “estavam vindo para o Brasil”, com a intenção de fazer, para um cliente daqui, o mesmo que haviam feito por lá.

As tonitruâncias de Fux acabaram se revelando conversa fiada. Nada foi feito pelo TSE preventivamente e nem tampouco depois que cresceram as suspeitas de que a campanha de Jair Bolsonaro e seus apoiadores haviam usado e abusado de fake news, manipulando a eleição. Os indícios de que Fernando Haddad sofreu um ataque de falsas informações na reta final do primeiro turno são gritantes.

O Judiciário e o Ministério Público viraram os olhos, a grande imprensa avança a passos intermitentes as apurações, o sistema político lavou as mãos. Na hora em que mais era necessária a discussão a respeito do uso e das consequências da disseminação das notícias falsas, poucos quiseram discuti-lo.

Hoje, parece ser de mau tom insistir em falar nas fake news na eleição. O bolsonarismo não quer, por motivos presentes e porque vai precisar voltar a se utilizar delas nos próximos meses, quando sua agenda regressiva enfraquecer a aprovação com que se iniciará e lhe faltar apoio popular. Praticamente toda a grande imprensa ignora o assunto. Falta tempo à maioria do Congresso, empenhada em se arranjar com os novos poderosos. Até uma parte da esquerda prefere se concentrar na tarefa de encontrar culpados pela derrota de Haddad dentro de suas próprias fileiras.

O exemplo do que acontece atualmente na Europa nos faz ver o equívoco que há nisso. Na aproximação das eleições para o Parlamento Europeu, somente em três países, dos treze procurados, houve alguma aceitação dos acenos de Steve Bannon. Sua oferta de apoio gratuito aos partidos de extrema direita, no âmbito do projeto global que pretende implantar, foi recusada por todos de expressão. Lá, ninguém quer ser visto de braços dados com um personagem com a imagem que possui depois de ter sido exposto.

Os Steve Bannon, com seus aprendizes e satélites, só prevalecem se não houver resistência democrática, se seus métodos e objetivos não forem criticados e questionados, se as instituições e a imprensa fizerem o jogo deles.

Na eleição, as chamadas fake news tiveram visibilidade máxima quando não passavam de um risco. Quando se tornaram um fato, poucos as trataram com a atenção que mereciam. Agora, quando seu poder de destruição foi demonstrado, a maioria quer jogar o assunto para debaixo do tapete. Prefere fingir que não existiram.

A expressão fake news adquiriu notoriedade ao se tornar mais que um anglicismo para substituir palavras familiares. Na época de eleições, sempre houve boatos, intrigas e mentiras postas a circular por alguns candidatos contra outros.

Não é nessa acepção tradicional que a expressão foi incorporada a nosso vocabulário. Começamos a utilizá-la para designar uma coisa nova que ameaçava as eleições, com potencial tão elevado de perturbá-las que poderia até comprometer sua realização.

No Brasil, o ápice de sua importância foi prematuro e aconteceu ainda em abril, quando o inefável Luis Fux, então presidente do Tribunal Superior Eleitoral, bravateou: “Se o resultado da eleição for fruto de uma fake news, anula a eleição”.

Disse que tomaria providências para evitá-lo. Sob sua batuta, o TSE formaria “comitês de inteligência” para acompanhar o processo eleitoral com foco na disseminação de notícias falsas. Seus integrantes viriam da Agência Brasileira de Inteligência, do Exército, Polícia Federal e Ministério Público.

Está claro que tamanho aparato não seria montado para coibir a fofocagem de sempre. O que motivava Sua Excelência era o risco de que notícias falsas fossem distribuídas em massa através da internet e das redes sociais para destruir adversários, de forma orquestrada e coordenada. Quem atacasse assim e ganhasse, poderia até vencer, mas não levaria. O bravo Fux, auxiliado por seus “comitês”, garantia que o trapaceiro seria identificado e punido.

O cerne da questão não estava, portanto, na inverdade de uma notícia a respeito de um candidato, mas em sua disseminação. Fake news não era a mesma coisa que notícia falsa, mas algo além: a mentira contra um candidato distribuída por outro em larga escala pela internet. Fundamentalmente, através do uso do chamado “impulsionamento”, dirigindo as falsidades aos segmentos mais influenciáveis do eleitorado.

Fux tinha motivos para preocupar-se. Um mês antes, em março, estourou o escândalo envolvendo a eleição de Donald Trump, Steve Bannon, seu estrategista, a empresa de consultoria Cambridge Analytica e o Facebook. Informações a respeito do interesse de Bannon, fortemente ligado ao bolsonarismo, e da consultoria no Brasil circulavam, em função da admissão de seu presidente de que “estavam vindo para o Brasil”, com a intenção de fazer, para um cliente daqui, o mesmo que haviam feito por lá.

As tonitruâncias de Fux acabaram se revelando conversa fiada. Nada foi feito pelo TSE preventivamente e nem tampouco depois que cresceram as suspeitas de que a campanha de Jair Bolsonaro e seus apoiadores haviam usado e abusado de fake news, manipulando a eleição. Os indícios de que Fernando Haddad sofreu um ataque de falsas informações na reta final do primeiro turno são gritantes.

O Judiciário e o Ministério Público viraram os olhos, a grande imprensa avança a passos intermitentes as apurações, o sistema político lavou as mãos. Na hora em que mais era necessária a discussão a respeito do uso e das consequências da disseminação das notícias falsas, poucos quiseram discuti-lo.

Hoje, parece ser de mau tom insistir em falar nas fake news na eleição. O bolsonarismo não quer, por motivos presentes e porque vai precisar voltar a se utilizar delas nos próximos meses, quando sua agenda regressiva enfraquecer a aprovação com que se iniciará e lhe faltar apoio popular. Praticamente toda a grande imprensa ignora o assunto. Falta tempo à maioria do Congresso, empenhada em se arranjar com os novos poderosos. Até uma parte da esquerda prefere se concentrar na tarefa de encontrar culpados pela derrota de Haddad dentro de suas próprias fileiras.

O exemplo do que acontece atualmente na Europa nos faz ver o equívoco que há nisso. Na aproximação das eleições para o Parlamento Europeu, somente em três países, dos treze procurados, houve alguma aceitação dos acenos de Steve Bannon. Sua oferta de apoio gratuito aos partidos de extrema direita, no âmbito do projeto global que pretende implantar, foi recusada por todos de expressão. Lá, ninguém quer ser visto de braços dados com um personagem com a imagem que possui depois de ter sido exposto.

Os Steve Bannon, com seus aprendizes e satélites, só prevalecem se não houver resistência democrática, se seus métodos e objetivos não forem criticados e questionados, se as instituições e a imprensa fizerem o jogo deles.

É sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi

Fonte: https://www.brasil247.com