A CAPA

Mateus Conde (*)

As pessoas não viam correntes, mas passei grande parte da minha vida aprisionado. Entre sorrisos de alegria e de prazer, por diversas vezes fui consumido pela tristeza. Fiz morada no terreno da aflição e engoli a seco todo sentimento ruim, simplesmente para esconder de todos o tamanho do meu sofrimento. Sentia em mim um vazio maior que o mundo, que me levava cada vez para mais longe das pessoas. Ninguém perguntava se eu estava bem, ninguém queria saber de mim, ninguém se importava tanto assim e, por mim, tudo bem. Mas não estava nada bem. Nada estava bem. Nada. Ainda assim, eu aprendi que ninguém precisava saber. As pessoas já tinham seus problemas, então resolvi guardar os meus somente para mim. Morte? Sim, eu pensei na morte. Muitas vezes quis que ela me visitasse e me levasse para bem longe daqui. Mas respirei fundo e fiz da dor uma capa de sorriso e da aflição meu abrigo. A decorei do jeito que gosto e, agora, ninguém consegue perceber o que ela de fato é. No final das contas, entendi que cada um carrega sua própria capa, umas mais leves que outras, mas todos têm a sua. Hoje, a minha está mais leve, e eu espero que, com o tempo, ela seja corroída e desgastada, como um tecido que o tempo se encarrega de envelhecer e destruir.

(*) Mateus Conde – estudante do curso de Letras Português da UFAC.